segunda-feira, 29 de junho de 2026

2026/06/29

 Os meses passam sem que eu possa fazer algo para os impedir. O verão vai tirar mais um pedaço de mim. Penso nas pessoas que morreram nos terremotos na Venezuela. Dois abalos acima de 7 na escala de Ritchter foram suficientes para soterrar milhares de seres humanos. Tantos inocentes que não mereciam este fim. Fica sempre a mesma pergunta; onde é que Ele está nestas ocasiões? Bom, Ele está em todo o lado, mas a sua natureza não lhe permite interferir. É Dele o Reino do Céu e será no seu Reino que a triagem será feita. A aceitação e o amor ao próximo, como prova de amor pelo Criador, farão toda a diferença. Se o perdão é garantido, já a entrada no Seu Reino é uma questão que necessita de outros atributos. Se o Reino é dele, quem sou eu para questionar a sua autoridade. Fico-me pela minha montanha, a minha escalada que partilho com a Deolinda e com a Mariana. Quando fizer os últimos metros ficarei por lá. Sem permissão, nem pedido de desculpa, irei largar a bola e as correntes. O martelo retornará à origem, para ser manuseado por outro mártir. Será dele a pedra por partir. Se encontrar a eternidade duvido que a reconheça. Finalmente em comunhão com o universo, a minha existência fará parte da substância absolutamente infinita Sem necessidade de explicações.

Quando o verão acabar estarei mais sábio e menos dependente do meu corpo. As lágrimas que vi nos olhos da minha filha lembram-me o seu amor. Essa é a dor que eu tenho de aprender.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Lirismo metafísico


No corpo, a dormência dos instintos, escondidos por debaixo dos lençóis. Na alma, a consciência da minha existência dorme com a cabeça debruçada na almofada. Sou perfeito em virtude de causas exteriores, e a minha existência tem origem na perfeição da substância. É dela a imortalidade que faço transparecer no verbo.

Sou pedra cinzelada por mãos divinas. Sou escultura compulsiva e inevitável.

Pertenço a um modo e, dentro do modo, sou singular. Nada mais sou que uma decisão da consciência, uma consciência que eu tenho a ilusão de controlar.

 

No corpo, a dormência.

Na alma, os instintos controlam

com mãos de veludo

a minha existência.

Afirmo a imperfeição sem conhecer a perfeição.

Todo eu sou paixão, e esqueço a natureza do meu modo.

Sou coagido por poderes externos,

fortalecidos pela sua convicção.

São poderosos por afirmação e convictos por natureza.

Neles, a certeza é presença exterior.

A razão é sempre a mesma:

aumentar o poder da sua existência.

 

Pergunto-me se cumpri a minha natureza.

Nesta fase transitória,

o fim não é condicionado por escolhas induzidas.

Se entendi o porquê, talvez possa levar comigo essa ilusão.


segunda-feira, 22 de junho de 2026

O Último Ato

 Acabei! Um ano depois, acabei. O que começou como um exercício de memória ganhou vida própria, e foi necessário terminar a sua existência. Nunca pensei que o pudesse terminar. Quando cheguei ao sétimo ato, já só me restava a voz, que ditava pedaços de oralidade. O oitavo ato foi a Susana que o escreveu. Quinze mil palavras que não encontrariam eco em nenhum lugar. Percorri esse deserto com a convicção de que não haveria um oásis capaz de matar a minha sede. Teriam sido aquelas as últimas palavras a espelhar a minha criatividade? Tudo indicava que era esse o destino que me estava reservado. Mas, mais uma vez, eu consegui adiar o inevitável. Não foi sozinho que ganhei essa batalha; sem a Deolinda e a Mariana, nada disto faria sentido. Mas muitos mais nomes existem, representando as inúmeras mãos que têm segurado nas minhas. Também elas escrevem estes textos. Não me vou repetir e falar novamente nos meus olhos, e no milagre tecnológico que me permitiu terminar “A Vida e a Morte do Sr. Jorge”. Dez mil palavras que prolongaram esta história até ao décimo nono e último ato. Publiquei-os, um a um, sem revisão. Podem ter perdido coerência, ser pobres no estilo e padecerem de males ortográficos e gramaticais, além de uma pontuação errática, mas são honestos. Vou sentir falta do Jorge.

sábado, 20 de junho de 2026

Ressaca

 A Ressaca. Quais os sintomas que indicam que estamos na presença de uma ressaca? O mais evidente é uma secura na boca, que nos faz pensar que as alterações climáticas invadiram o nosso corpo. Mas também temos os enjoos e as dores de cabeça, além da azia no estômago e das perturbações intestinais. Quando estes sintomas surgem em simultâneo, significa que a ressaca é grande e que o seu portador se encontra em condições impróprias para consumo. Este estado pode durar vários dias e vem acompanhado de pouca vontade para repetir a brincadeira.

Hoje é sábado, e faz três dias que vimos a apresentação de Portugal no Mundial. Vislumbra-se o fim da ressaca nas palavras de Rúben Dias. O álcool era de má qualidade, e logo depois do primeiro copo nunca mais conseguimos atinar. Até parecia que nunca tínhamos bebido juntos. Os que foram à frente perderam-se pelas ruelas do Bairro Alto. Os outros não os encontraram e foram parar ao Cais do Sodré. Os últimos ficaram sozinhos e levaram uns tabefes no focinho; só não levaram mais porque a noite acabou e os outros estavam satisfeitos. O que vale é que o nosso irmão mais velho garantiu ao nosso pai que isto não volta a acontecer. Aparentemente, o pai dos rapazes não os ensinou a beber, mas quem sou eu para falar de copos e noitadas.

Seja como for, na terça lá estarei, sentado no meu sofá, com uma mini da Sagres para dar sorte; há que respeitar os patrocinadores. Só não bebo uma litrada de super da Galp, porque a gasosa está pelos olhos da morte.

Adiei a consulta de fisioterapia para poder cumprir a minha obrigação como português. Às 18H, cá estarei, entoando o hino a plenos Pulmões. Invocarei os heróis e o mar, e o nobre povo que eles representam. Da Nação procurarei, entre as brumas, os antepassados que a honraram, e irei convidá-los para o meu sofá. Juntos vamos marchar contra tudo e contra todos, porque só a vitória nos irá saciar esta sede de glória.

Uma palavra curta sobre o Uzbequistão. Situa-se na Ásia Central, é quatro vezes maior que Portugal e não tem costa marítima. Foi, até 1991, uma das repúblicas socialistas soviéticas. Tem fronteiras com cinco países, incluindo o Afeganistão, nenhum dos quais tem contacto com o mar. A maior parte do seu território é composto por planícies e zonas desertas. A sua história está ligada à rota da seda. Ao contrário de Portugal, é um país com uma média de idades muito baixa, cerca de trinta anos, e com elevado crescimento demográfico desde que se tornou independente. A língua russa ainda perdura, principalmente nas trocas comerciais. O Islão é a religião principal, sunitas, mas também têm uma minoria cristã ortodoxa, resquícios do domínio russo.

E, sobre a ressaca de quarta, não tenho mais nada a dizer.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Navegando pelo Mundial

 O Mundo está dividido entre guerras e o mundial de futebol. Por estes dias, todos vestem a camisola de uma qualquer seleção. A maior parte por convicção nacional, mas também existem outros motivos para se vestir uma camisola. Seja lá por que motivo for, em frente do ecrã, todos tomam um partido. Muitas vezes, existem variados motivos para se simpatizar com uma seleção, e estes podem ser distintos e contraditórios. Tomemos como exemplo o caso do Irão. E porquê o Irão? Porque este exemplo espelha na perfeição o meu raciocínio. Vejamos então os motivos para apoiar.

Começo pelo óbvio orgulho nacional. Quanto a este, nada mais há a acrescentar. A narrativa da nacionalidade continua a ser das mais consensuais. A próxima aproxima-se da simpatia pelos mais desfavorecidos. Quem a defende pode sempre alegar que não é justo o Irão estar a jogar num país hostil. Depois, temos os antiamericanos, e estes existem de diversas formas e feitios. Temos também os apoiantes do eixo Rússia/China. Neste caso, misturam-se razões que remontam ao início do século XX. O apelo religioso também será um motivo forte. O efeito do Deus único e do seu entendimento extravasa para todos os setores da sociedade. Os povos árabes nunca foram muito unidos e, por vezes, até bastante hostis, mas acredito que o apelo civilizacional possa ter algo a dizer. Temos sempre a dicotomia entre a esquerda e a direita, que pode levar a apoios inesperados. É sempre importante estar do outro lado da barricada. A água e o azeite nasceram para não se misturar, e a sua repulsa ainda hoje é dada como exemplo. O ódio ao mundo ocidental não deve ser desprezado nesta lista. Acabo com o antissemitismo, que, sendo ancestral, é uma razão com aval histórico.

O mesmo número de razões existirá para não apoiar a seleção do Irão. O futebol jogado, para muitos, ficará sempre em segundo plano. Qual o português que não apoiou o Senegal contra a França? E qual foi o que não sorriu de satisfação com o empate de Cabo Verde defronte da Espanha? E a triste constatação da superioridade do Messi, que marcou três golos no encontro entre a Argentina e a Argélia e nos deixou roídos de inveja?

Hoje joga Portugal, e a comunicação social tem desempenhado o seu papel de terapeuta motivacional. Nós somos melhores que o Congo, e ponto final. Onde é que já se viu chegarem com faixas de leopardos e malas a condizer? Só o que faltava era terem esfolado os pobres animais para produzir o cenário. O que sabemos do Congo não chega para grandes ódios. O segundo maior país de África, em extensão territorial, é uma das maiores reservas minerais do mundo. Vive atualmente uma perigosa crise política, onde a mudança da constituição está em cima da mesa, de modo a permitir um terceiro mandato do atual presidente. Tem Ébola e forças rebeldes, e fica lá longe, no interior de um continente que foi dividido entre europeus. Nasceu em 1960, tem mais cinco anos que eu e continua a sofrer com as dores de um crescimento precoce, tentando aglutinar numa nação mais de duzentos e cinquenta grupos étnicos. É desse país que vem a seleção que vamos defrontar hoje, pelas 18 horas. Quanto ao nosso país, basta estar atento, pois os sinais estão todos à vista.

Já tenho o cachecol e a cerveja no frigorífico; só me resta esperar.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Uma explicação necessária 2026/06/15

 Um ano e seis meses depois, pego neste projeto falhado. E falhou porquê? Porque eu pensei que estava a dizer as derradeiras palavras. Imaginei um diário inacabado, precocemente interrompido pelas circunstâncias. No final do ano de 2024, eu tinha assumido totalmente a minha incapacidade de comunicação. A escrita perdera-se e a voz começara a seguir o mesmo caminho. Entrei em 2025 com a convicção de que iria viver o meu último ano. O que se passou então? Passou-se a vida com os seus imponderáveis. Foi a recompensa por lhe ter aberto a porta. Deixei entrar tudo o que ela ainda tinha para me dar. Seria impossível deixar um registo fiel de tudo o que aconteceu em tão poucas palavras. Tivesse eu continuado este diário, e o testemunho estaria gravado, mas só agora o consigo fazer. Bendita a Filomena, a Deolinda, a Luana, a APELA e a tecnologia que me permite usar o computador com os olhos. É esse o milagre por detrás das minhas palavras. Tenho escrito compulsivamente e publicado numa base diária. Para isso, recuperei os três blogues onde publicava. Recuperei a minha voz e a esperança de a levar até aos meus últimos dias. Sendo legítima, não deixa de ser apenas uma esperança. Se ela se concretizará, só o futuro o dirá. Entretanto, vou deixando um rasto de palavras que são apenas cinco minutos de existência.

2024/11/26

 Continuo experimentando o ditado do programa informático de escrita. Hoje liguei-o ao microfone que comprei e melhorei a qualidade da minha escrita. Quem me dera poder dizer o mesmo acerca da minha qualidade de vida. Nem sempre se tem o que é merecido. Pode parecer falta de humildade ou atrevimento, mas é apenas uma constatação de um facto. E qual é esse facto? É aquele em que se admite que uma doença como a minha não é castigo para ninguém. A conversa não me pode sair de outra maneira e sou obrigado a repetir-me. Tenho um colchão novo ligado à eletricidade. Todo eu sou elétrico: a cadeira, o telemóvel, o elevador, o portátil, o tablet, a máquina de barbear, a escova de dentes, o relógio, o medidor da qualidade do ar, os auscultadores, a mão que escreve, os olhos que leem, o relógio que mede o oxigénio no meu sangue, o caminho para casa, o microfone para onde cuspo estas palavras e todo um mundo de promessas que não irão ser cumpridas. Hoje foi mais um dia, mais um dia onde o meu exemplo serviu de corda para alguém se agarrar. Se sou melhor por isso? É evidente que não, mas sinto que talvez a minha vida não tenha sido em vão, que esta maldita doença serviu para me tornar uma pessoa melhor. Cantei e toquei viola quando me cortaram os intestinos. Escrevi e publiquei o meu primeiro romance quando me enamorei por ELA. Perdi a inveja, a soberba, o ciúme e, por incrível que pareça, também perdi a raiva. No meio de tudo isto, tenho a sensação de ter ganho alguma coisa a que não sei dar nome. Não me quero ir embora sem a batizar.

domingo, 14 de junho de 2026

2024/11/22

 Por altura do 25, o conflito reabre-se. Este ano, pela primeira vez, a comemoração do dia 25 de novembro tem lugar na Assembleia da República. A data, por motivos que não podiam deixar de ser políticos, tornou-se campo de batalha entre a direita e a esquerda, fazendo tábua rasa dos acontecimentos históricos. Pelo meio, o 11 de março é esquecido, quem sabe por não ter acontecido no dia 25 desse mês. A minha memória é fraca para ir buscar ao meu passado factos que ocorreram quando eu tinha 10 anos. Do que me lembro, recordei 3 nomes: Jaime Neves, que saiu com os comandos da Amadora, bem perto de minha casa, vá-se lá saber para onde; Ramalho Eanes, o herói em cima do Renault 16, de camisa aberta e peito feito às balas; e, por fim, o eterno Mário Soares, o político que chefiava o partido vencedor das primeiras eleições legislativas no 25/04/1975. Falta-me aqui um nome: Vasco Gonçalves, o homem que simbolizou o PREC. Para quê discutir hoje o valor de um dia que deriva diretamente do 25 primordial? Primeiro o pai, depois o filho, assim manda a cronologia, de modo que não seja necessária uma máquina do tempo para entender a história. Se o primeiro 25 é consensual, já o segundo está afetado de sangue cruzado. Se, no primeiro, os interesses militares faziam da corporação um conjunto unitário, no segundo, as vontades não nos levam a conclusões óbvias. Do que li, cheguei à conclusão de que haverá sempre lugar para múltiplas interpretações, conforme os gostos e as vontades, mas uma certeza eu tenho: a divisão nunca será entre a esquerda e a direita. Na nova narrativa, falta sempre um dos protagonistas: o PS e Mário Soares. Historicamente, nunca ficou clara a intenção que levou os paraquedistas a sair do quartel, mesmo que não dê jeito essa incerteza. É, certamente, um dos períodos mais ricos da nossa história recente.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

2024/11/06

Trump ganhou as eleições, ratos roem o interior do meu carro, vou avançar para a publicação do meu livro, estou doente vai para 6 dias. De tanto para dizer restam pequenas frases. Poderia separá-las por stops e assim pareceria um telegrama. Quando se quer tudo, e tudo se pode reduzir a tão pouco. Poderia ter acrescentado que se continua a morrer no Líbano e na faixa de Gaza, mas quem é que se preocupa com isso se praticamente já esquecemos a guerra da Ucrânia, telenovela desgastada que repete o argumento sem se descobrir o fim. Ah, já me esquecia, aqui mesmo ao nosso lado um fenómeno meteorológico a que chamam o nome de gota fria, causou morte e devastação na região de Valença.

Estarei morto? Ainda não, pelo menos a julgar pelas palavras da médica que avaliou a minha condição respiratória. Lá me vou safando com os 90 e tal por cento de oxigénio que o meu diafragma consegue sugar para dentro dos meus pulmões. Caminham para se tornar uns foles sem graça, mas por enquanto vão cumprindo a sua função o que me coloca num limbo entre o vegetal pensador que mal se mexe e a pedra filosófica com residência fixa. Estou destinado a ser monitorizado, desta vez com serviço ao domicílio. Ficou programada uma visita daqui a um mês. Nessa visita um rapaz, ou uma rapariga, farão a entrega de um equipamento que dirá de sua justiça; se eu estou, ou não, a respirar em condições, se o oxigénio entra o suficiente e se o dióxido de carbono sai o que deveria sair. Por enquanto vou-me safando da máscara noturna que irá piorar ainda mais as minhas insónias. Como se costuma dizer, “enquanto o pau vai e vem folgam as costas “. Os meus braços pioram a olhos vistos, e para agravar a situação deixei de ir à fisioterapia, pelo menos assim aconteceu nas 2 últimas semanas. De quem é a culpa? A culpar alguém, talvez as circunstâncias. Por exemplo, o meu carro que continua cheio de ratos e que neste momento se encontra estacionado numa oficina em Beja. Mas como bom português não consigo ver tudo negro e lá vejo o rosa na forma de um Peugeot 2006 emprestado pela empresa. Ironia do destino o carro é preto.

terça-feira, 9 de junho de 2026

2024/10/30

Quantas palavras poderia eu colocar nesta falsa folha de papel para descrever estes últimos dias? Penso que muitas, e, mesmo assim, não diria tudo. Dizer que estou pior é um lugar-comum, uma inevitabilidade, tal como a morte. Todos os dias, uma parte do meu corpo cede à doença. Hoje uma perna, amanhã um braço, outro dia uma mão. À noite, é sempre a cabeça que cede e, com ela, um pouco do que me mantém vivo: a vontade. As pequenas coisas do dia a dia deixam-me frustrado e nem mesmo a boa vontade de quem me rodeia consegue fazer-me esquecer que o fim está próximo e que o meu estado será sempre mais degradante. No meio de tudo isto, poderia encontrar prazer nas outras pequenas coisas que ainda me fazem sonhar. Escrever, ouvir música, ler, prazeres que me sobram, mas que também me serão roubados, tornam-se cada vez mais difíceis e dependentes de outros. Entretanto, o nosso carro avariou. Um rato, ou ratazana, que eu não cheguei a ver, entreteve-se a fazer ninho no motor do automóvel. Pelo caminho, roeu fios e mais umas coisas que eu não sei identificar. Se alguém o quiser fazer, que me peça as fotografias enviadas pela oficina. Enfim, o nosso meio de transporte, com apenas um ano, já lá foi duas vezes. São javalis, são ratos, são azares que se juntam a todos os outros que me têm perseguido nestes últimos anos. Não sou pessoa de acreditar em bruxas e encomendas do diabo, mas não foi com espanto que me vi aceitar, com naturalidade, a proposta da Deolinda para pedir a alguém que verificasse a existência de um mau-olhado. Parece que o azeite espirrou, tal era o tamanho do dito cujo. Aparentemente, eu e ela éramos invejados, o que provocava tão nefastas vibrações. Safou-se a minha filha, que, pelos vistos, não provoca esses sentimentos nos outros. O que dizer de tudo isto? Talvez o único facto que mereça aqui referência seja a minha desistência de princípios científicos e o render-me, indefeso, ao lado negro da vida, sem questionar o porquê nem estudar o assunto, aderindo de coração e alma aos enigmas que nos fazem suspeitar de uma grandeza que não temos. Já obtive resposta da editora e esta não foi agradável. Já é degradante o suficiente ter de pagar para ser lido. Pelos vistos, o preço aumentou para 1800 EUR. O processo é o mesmo: tenho de adquirir 100 exemplares à módica quantia de 18 EUR. Tenho dinheiro para o fazer, mas a Deolinda não concorda com o facto de termos de ficar com mais livros em casa, livros esses que não serão vendidos. Argumenta ela que não é justo obrigarmos os nossos amigos a comprar mais um livro. Melhor seria dá-los como recompensa por me terem lido e só precisaríamos de 50. Sei que ela tem razão, mas não foi por isso que me doeu menos ver, refletida nas suas palavras, a insignificância do meu sonho. Respondi-lhe, maldisposto, que, se fosse necessário, se queimava o excedente literário como combustível para a lareira, e ela respondeu-me que, se eu quisesse, poderia acompanhar a minha obra. Nenhum de nós quis dizer o que disse, mas são assim as discussões entre quem se ama, porque sabem que o perdão virá a seguir. Mesmo sabendo que o perdão está garantido, a vontade que tinha de editar o meu romance foi ferida de morte. Mesmo assim, enviei um mail para a editora propondo uma redução de custo, mas fi-lo sem convicção, mais por obrigação, pelo empenho da minha irmã, que tanto deu dela para que a obra se concretizasse. Estou no trabalho e já chorei na casa de banho com a minha amiga Ana, que é um dos meus Anjos da Guarda, talvez aquele que mais lágrimas tenha visto escorrer pelos meus olhos. É quase uma da tarde, estou à espera dela para me levar a almoçar. Ficou muito por dizer, mas tudo o que escrevo tem de ser verbalizado, o que me deixa desconfortável. Que saudades que eu tenho de uma caneta e de um papel, da intimidade desses objetos. “O que foi não volta a ser, mesmo que muito se queira, e querer não é poder.” Estes versos que o Tim cantou fazem todo o sentido. Por hoje é tudo, até qualquer dia.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

2024/10/25

 Lisboa e os seus subúrbios continuam a arder. As forças policiais mataram um homem de 42 anos na Cova da Moura.  O homem de nacionalidade cabo-verdiana e raça negra, morava no bairro do Zambujal. O Zambujal é um bairro da Freguesia de Alfragide que pertence ao município da Amadora. Etimologicamente, o nome deriva do árabe berbere az-zambujj, que significa Oliveira. A sua situação geográfica coloca-o a sul da Freguesia da Buraca e separada desta pelo IC19. Organizações e reorganizações à parte, o que para aqui interessa é a situação marginal do bairro e a pobreza da sua população. Se juntarmos a tudo isto a origem racial de quem lá vive e a forma como país costuma tratar estes microcosmos, facilmente percebemos o porquê do que estamos a assistir. Tudo isto é triste e poderia ser evitado com políticas de integração mais consistentes, quer isto dizer, mais pragmáticas e viradas para atuações no terreno. Mas não é assim que a política funciona e os problemas vão-se arrastando, criando bolhas que mais cedo ou mais tarde acabam por rebentar. Não sou eu que o digo, provavelmente algo que eu ouvi num sítio qualquer, mas o grau civilizacional de um país mede-se pela forma como tratamos as minorias desprotegidas. E aqui poderia falar das vítimas de violência doméstica, dos idosos, da população que vive no limiar da pobreza, e de muito mais grupos que poderiam ser incluídos. Enfim, país que é pobre não tem vícios, palavras que vieram do Norte aquando da crise no começo da década anterior. Possivelmente cuidar daqueles que precisam é um vício, chamam-lhe dependência, subsidiodependência, um estigma que se assemelha a uma Estrela de David cosida na roupa. Os sinais têm estado à vista de todos. Cada vez mais as questões se resolvem com violência extrema e os tempos são de violência. Hoje é dia 25 e são 12 horas e 25 minutos. Estou a trabalhar e já passaram alguns dias sobre a morte de Odair Moniz. Eu estou longe do epicentro dos acontecimentos, que se concentram na zona da capital e arredores, mas nada me garante que não se estendam a outros locais do país. Para já a minha grande preocupação é a minha filha. Que a Venteira escape ao caos dos tumultos, é o meu desejo.

domingo, 7 de junho de 2026

2024/10/22

Hoje sinto-me melhor. A avaliação é feita na casa de banho. Consigo ou não levantar-me da cadeira de rodas sozinho, baixar as calças e as cuecas, agarrar o pénis e direcioná-lo para a sanita. Este é o modo de aferição das minhas capacidades. Bem, não utilizo só este método. Levantar-me da cama, carregar nos botões do seu comando, tentar cortar a barba com a máquina, colocar os óculos na cara com a mão esquerda, tomar o pequeno-almoço sem necessitar de ajuda para limpar o prato, tomar a medicação, encher um copo com água da garrafa, introduzir a password no computador do trabalho, tentar fazer a minha assinatura sem deixar cair a caneta no chão, todas estas ações me fornecem indícios acerca da evolução da minha doença. Poderia ter feito uma lista maior, muito maior, mas esgotaria o assunto e saturaria este registo com excesso de informação. Voltei a ter disponível o “Copilot” no “Edge” do meu computador. Só o utilizo no trabalho e tenho algum receio do que ele me possa revelar se lhe perguntar por mim. Posso por exemplo perguntar-lhe quem é o Paulo Jorge Saboga da Silva Guerreiro para ficar a saber que eu não existo na net. É sempre bom tomar conhecimento da nossa irrelevância, uma singularidade que passa despercebida no universo conhecido. Sempre me senti bem no anonimato. Nada como uma boa dose de indiferença para nos mantermos seguros.

sábado, 6 de junho de 2026

2024/10/19

 Já nem sei quando foi a última escrevi alguma coisa para o meu suposto diário. Não terá sido por falta de acontecimentos, nem de batalhas pessoais, pois não me faltam desafios aos quais eu tenho de responder de forma imediata. Outros existem que requerem um tipo diferente de abordagem, porventura mais demorada, mas também mais racional. A cada dia que passa sou obrigado a uma adaptação, pequenos ajustes que me levam sempre ao mesmo sítio, uma realidade que necessita de uma nova abordagem. Quem diria que viver dá tanto trabalho. Sou um pedaço biológico em constante adaptação.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

2024/10/05

 5 de outubro, feriado. Poderia ter sido um dia qualquer, mas não foi. Quando a minha prima enviou uma mensagem dizendo que queria vir cá abaixo, ponderei dizer-lhe que não era a altura indicada para uma visita, mas algo me levou a mudar de ideias. Acredito que tenha sido o destino. Quem melhor do que ele para insinuar decisões cujas consequências são irreversíveis? Bendito seja ele por me ter levado a mudar de ideias. O livro que estou a ler, “O Mapeador de Ausências” de Mia Couto, fala de uma viagem a Moçambique, mas da sua leitura não consegui intuir o futuro. Está bem que essa viagem é um retorno, e que o futuro me reserva outro tipo de viagem. Na prática, eu vou viajar por interposta pessoa. E aqui entra a minha prima Helena e a sua vinda ao Alentejo. Tendo decidido recebê-la restava então saber ao que vinha, se para almoçar ou para jantar, o que levantava questões logísticas relacionadas com o facto de a Deolinda estar de prevenção este fim de semana. Ficámos a saber que o almoço seria a contento de todos e por esse motivo reservámos mesa na ”Ti Lena”, restaurante de grelhados em Deixa o Resto. Já lá os tinha levado uma vez e todos tinham gostado muito. Aqui aproveito para nomear a restante família; Pedro, o marido da minha prima, e os seus dois filhos, o Vasco e o Vicente. Desta vez o Vasco não viria, preso que estava a compromisso ligados à sua atividade musical. Com tudo combinado bastou esperar pelas 12 horas. Eu e a Deolinda saímos de casa sozinhos, eles iriam lá ter. Quando chegámos eles já lá estavam. Entrámos e, como de costume, fomos bem recebidos, mesa a um canto, junto a uma enorme talha, lugar recatado que nos permitia trocar intimidades sem medo de ouvidos alheios. Não vou falar da ementa, que sendo excelente, não merece relevo neste texto. Outra altura lhe estará reservada para fazer justiça ao que de bom se come naquela casa. O almoço decorreu com normalidade. Falamos de tudo e de nada, o que na prática significa que dissertamos sobre política, arte, religião, e pequenos pormenores da nossa vida quotidiana. Só quando chegar aos cafés é que a minha prima revelou a verdadeira intenção da sua visita. Fê-lo de maneira semelhante àquela em que me comunicou a sua decisão de ir trabalhar para a embaixada portuguesa em Cabo Verde. A única diferença foi, que dessa vez já se encontrava no aeroporto e desta vez só parte no próximo fim de semana. O destino também é diferente. Embora África seja uma constante, assim como uma embaixada portuguesa, o país desta vez é Moçambique. Pouco mais havia a dizer se não a congratular pela decisão e desejar-lhe boa sorte. Possivelmente não a verei mais, os 3 anos que lá irá ficar serão demais para a minha esperança de vida. Não foi à mesa que chorei, nem eu nem nenhum dos presentes. A primeira lágrima via-a nos olhos da Deolinda enquanto me ajudava a entrar no carro. Já me tinha despedido de Helena, do Pedro e de Vicente. O carro deles estava estacionado mais à frente e quando nosso passou fiz-lhes adeus. Foi nessa altura que me apercebi das lágrimas de Helena, foi nessa altura que as minhas lágrimas se transformaram num gemido ansioso e sem ar. Um dia depois da minha decisão de começar um diário não poderia haver acontecimento mais disruptivo. Mais tarde, já em casa, a Deolinda foi chamada para ir trabalhar. Que orgulho que eu tenho na Helena e na sua coragem de sangue guerreiro. Ela em moçambique e eu numa cadeira de rodas por trás das redes da refinaria.

terça-feira, 2 de junho de 2026

2023/07/24

 Nunca pensei que fosse tão difícil. O laboratório deixou de ser a minha zona de conforto, a minha concha laboral. O que aconteceu durante estas três semanas de férias? A reposta é óbvia, passaram três semanas. E eu a pensar que podia agarrar o tempo, que podia segurá-lo apenas com a minha força de vontade. Sou obrigado a admitir que me tinha numa conta demasiado elevada. Estou desejando que o dia acabe e isso não é nada bom.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Um Verão No Passado

 

Deambulo pelo pinhal num dia ameno de verão. Levo vestido o que levo, e isso não é importante. Estou aqui e, ao mesmo tempo, tão distante. Por debaixo da rama dos pinheiros, o sol, que não é forte, revela-se um amigo discreto. Este ano, não te vou queimar, não vou aquecer o ar ao ponto de o tornar irrespirável, não te vou martirizar com suores desconfortáveis, fazer-te implorar por sombras onde a aragem não penetra. Obrigado, verão, não sei como te poderei agradecer. Talvez este meu ar descontraído e satisfeito te possa recompensar, fazer-te sentir que o teu trabalho não foi em vão. Serei dos poucos plenamente satisfeitos com a tua brandura. Poucos, mas bons, direi eu. E o que eu disser, embora não seja lei, ficará escrito no ar para toda a eternidade.


Eu também estou numa tenda!

Eu também estou numa tenda! Já há muito tempo que não ficava tão orgulhoso com imagens nas televisões generalistas: um movimento social de r...