Navegando pelo Mundial
O Mundo está dividido entre guerras e o mundial de futebol. Por estes dias, todos vestem a camisola de uma qualquer seleção. A maior parte por convicção nacional, mas também existem outros motivos para se vestir uma camisola. Seja lá por que motivo for, em frente do ecrã, todos tomam um partido. Muitas vezes, existem variados motivos para se simpatizar com uma seleção, e estes podem ser distintos e contraditórios. Tomemos como exemplo o caso do Irão. E porquê o Irão? Porque este exemplo espelha na perfeição o meu raciocínio. Vejamos então os motivos para apoiar.
Começo pelo óbvio orgulho nacional. Quanto a este, nada mais há
a acrescentar. A narrativa da nacionalidade continua a ser das mais
consensuais. A próxima aproxima-se da simpatia pelos mais desfavorecidos. Quem
a defende pode sempre alegar que não é justo o Irão estar a jogar num país
hostil. Depois, temos os antiamericanos, e estes existem de diversas formas e
feitios. Temos também os apoiantes do eixo Rússia/China. Neste caso, misturam-se
razões que remontam ao início do século XX. O apelo religioso também será um motivo
forte. O efeito do Deus único e do seu entendimento extravasa para todos os
setores da sociedade. Os povos árabes nunca foram muito unidos e, por vezes,
até bastante hostis, mas acredito que o apelo civilizacional possa ter algo a
dizer. Temos sempre a dicotomia entre a esquerda e a direita, que pode levar a
apoios inesperados. É sempre importante estar do outro lado da barricada. A água
e o azeite nasceram para não se misturar, e a sua repulsa ainda hoje é dada como
exemplo. O ódio ao mundo ocidental não deve ser desprezado nesta lista. Acabo
com o antissemitismo, que, sendo ancestral, é uma razão com aval histórico.
O mesmo número de razões existirá para não apoiar a seleção do
Irão. O futebol jogado, para muitos, ficará sempre em segundo plano. Qual o português
que não apoiou o Senegal contra a França? E qual foi o que não sorriu de
satisfação com o empate de Cabo Verde defronte da Espanha? E a triste constatação
da superioridade do Messi, que marcou três golos no encontro entre a Argentina
e a Argélia e nos deixou roídos de inveja?
Hoje joga Portugal, e a comunicação social tem desempenhado o
seu papel de terapeuta motivacional. Nós somos melhores que o Congo, e ponto
final. Onde é que já se viu chegarem com faixas de leopardos e malas a condizer?
Só o que faltava era terem esfolado os pobres animais para produzir o cenário. O
que sabemos do Congo não chega para grandes ódios. O segundo maior país de África,
em extensão territorial, é uma das maiores reservas minerais do mundo. Vive
atualmente uma perigosa crise política, onde a mudança da constituição está em
cima da mesa, de modo a permitir um terceiro mandato do atual presidente. Tem Ébola
e forças rebeldes, e fica lá longe, no interior de um continente que foi
dividido entre europeus. Nasceu em 1960, tem mais cinco anos que eu e continua
a sofrer com as dores de um crescimento precoce, tentando aglutinar numa nação
mais de duzentos e cinquenta grupos étnicos. É desse país que vem a seleção que
vamos defrontar hoje, pelas 18 horas. Quanto ao nosso país, basta estar atento,
pois os sinais estão todos à vista.
Já tenho o cachecol e a cerveja no frigorífico;
só me resta esperar.
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