terça-feira, 20 de outubro de 2026

Eu também estou numa tenda!

Eu também estou numa tenda!
Já há muito tempo que não ficava tão orgulhoso com imagens nas televisões generalistas: um movimento social de repúdio pela inaptidão generalizada para cumprir um dos preceitos da constituição portuguesa. Mais orgulhoso me sinto pela forma ordeira como estes movimentos se organizaram. As autoridades tiveram de desenterrar um decreto-lei de 1974 para justificar a sua acção, por pouco que não recuavam longe demais. Enfim, 74 é um bom ano para relembrar, que mais não seja, porque valida uma grande parte das suas reivindicações, a começar pela habitação. Eu já estou a ouvir as vozes da razão e da moral advogando o cumprimento escrupuloso das leis nacionais, e fazendo eco com alguns deputados da nossa assembleia, que preconizavam um tratamento mais musculado, com o recurso a muros e, porque não, à execução sumária daquela “esquerdalha” radical e inútil. Possivelmente são sensíveis a algumas das tatuagens presentes na manifestação, como se não bastassem os piercings e os cortes de cabelo à FMM. Mas as acusações foram mais longe: meninos mimados que não fazem nenhum e vivem no “bem bom” da casa dos pais, adoradores do culto comunista, malta drogada que fuma umas “merdas”, a cocaína não é para todos os bolsos, mesmo sendo, na nossa costa, mais comum que a sardinha, e por aí fora, até desaguarem na suprema acusação. Afinal, isto é, uma “trend”, uma cena importada de Espanha. Querem lá ver que esta cambada de energúmenos mal despidos, agora dedica-se à moda? Qualquer dia andam para aí a reivindicar o preço dos combustíveis em Espanha.



Agora, falando a sério. A falta de habilitação é um grave problema, para o qual, sucessivos governos se têm mostrado incapazes de resolver. É um problema que extravasa as nossas fronteiras, mas que nos afecta de modo particular, também devido aos baixos salários dos portugueses. A situação tem vindo a piorar e, finalmente, vejo os jovens na rua. Afinal estão vivos, e dispostos a deixar o conforto do lar, e as noites de boémia, para manifestar o seu desagrado. Eu não descontei 43 anos para ter de decidir entre a “liberdade” de circulação nas praças de Lisboa e do Porto, e o direito, mesmo em desobediência passiva (o que seria a Índia sem ela), de reclamar por habitação. Eu já fiz a minha escolha e, tal como nos jovens, tenho muito orgulho nela. E mais não digo!


quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Agnóstico? Porque não?

Agnóstico? Porque não?

É uma definição confortável que, ministrada em pequenas doses, evita dores metafísicas. Assumir a impossibilidade de encontrar, com o conhecimento actual, provas, empiricamente sustentáveis e lógicas, sobre a existência de Deus, do divino, ou do sobrenatural, permite que eu me furte a um juízo comprometedor. Do alto da minha inacção, declaro que não ficou provado, sem margem para qualquer dúvida, a existência dos anteriormente nomeados. A minha declaração pública não me compromete, e permite-me, usando o tão celebrado Livre Arbítrio, proclamar a minha fé em nome do conforto e do equilíbrio emocional. E nem preciso declarar fidelidade a nenhuma religião em particular, pois, a minha decisão não é suportada pela razão, mas pela fé inabalável em algo que eu escolhi acreditar. Possivelmente sou um Teísta Agnóstico, cuja natureza é infiel.

O mesmo se passa na política internacional. Sabemos da sua existência, mas somos agnósticos quanto às suas intenções. Teístas, por necessidades materiais, e imateriais, decidimos acreditar. Assim funcionam os blocos oposicionistas. Cada um tem o seu Deus, a sua verdade dogmática, os seus cultos, e as suas orações. Hoje um míssil, amanhã uns litros de gasóleo, tudo temperado a gosto com discursos saídos de uma qualquer trilogia literária. Para quê perder tempo com ninharias?

Politicamente, identifico-me com o Ateísmo Agnóstico. Nada existe para além da nossa imaginação perversa, e distorcida.

Eu também estou numa tenda!

Eu também estou numa tenda! Já há muito tempo que não ficava tão orgulhoso com imagens nas televisões generalistas: um movimento social de r...