2024/10/05

 5 de outubro, feriado. Poderia ter sido um dia qualquer, mas não foi. Quando a minha prima enviou uma mensagem dizendo que queria vir cá abaixo, ponderei dizer-lhe que não era a altura indicada para uma visita, mas algo me levou a mudar de ideias. Acredito que tenha sido o destino. Quem melhor do que ele para insinuar decisões cujas consequências são irreversíveis? Bendito seja ele por me ter levado a mudar de ideias. O livro que estou a ler, “O Mapeador de Ausências” de Mia Couto, fala de uma viagem a Moçambique, mas da sua leitura não consegui intuir o futuro. Está bem que essa viagem é um retorno, e que o futuro me reserva outro tipo de viagem. Na prática, eu vou viajar por interposta pessoa. E aqui entra a minha prima Helena e a sua vinda ao Alentejo. Tendo decidido recebê-la restava então saber ao que vinha, se para almoçar ou para jantar, o que levantava questões logísticas relacionadas com o facto de a Deolinda estar de prevenção este fim de semana. Ficámos a saber que o almoço seria a contento de todos e por esse motivo reservámos mesa na ”Ti Lena”, restaurante de grelhados em Deixa o Resto. Já lá os tinha levado uma vez e todos tinham gostado muito. Aqui aproveito para nomear a restante família; Pedro, o marido da minha prima, e os seus dois filhos, o Vasco e o Vicente. Desta vez o Vasco não viria, preso que estava a compromisso ligados à sua atividade musical. Com tudo combinado bastou esperar pelas 12 horas. Eu e a Deolinda saímos de casa sozinhos, eles iriam lá ter. Quando chegámos eles já lá estavam. Entrámos e, como de costume, fomos bem recebidos, mesa a um canto, junto a uma enorme talha, lugar recatado que nos permitia trocar intimidades sem medo de ouvidos alheios. Não vou falar da ementa, que sendo excelente, não merece relevo neste texto. Outra altura lhe estará reservada para fazer justiça ao que de bom se come naquela casa. O almoço decorreu com normalidade. Falamos de tudo e de nada, o que na prática significa que dissertamos sobre política, arte, religião, e pequenos pormenores da nossa vida quotidiana. Só quando chegar aos cafés é que a minha prima revelou a verdadeira intenção da sua visita. Fê-lo de maneira semelhante àquela em que me comunicou a sua decisão de ir trabalhar para a embaixada portuguesa em Cabo Verde. A única diferença foi, que dessa vez já se encontrava no aeroporto e desta vez só parte no próximo fim de semana. O destino também é diferente. Embora África seja uma constante, assim como uma embaixada portuguesa, o país desta vez é Moçambique. Pouco mais havia a dizer se não a congratular pela decisão e desejar-lhe boa sorte. Possivelmente não a verei mais, os 3 anos que lá irá ficar serão demais para a minha esperança de vida. Não foi à mesa que chorei, nem eu nem nenhum dos presentes. A primeira lágrima via-a nos olhos da Deolinda enquanto me ajudava a entrar no carro. Já me tinha despedido de Helena, do Pedro e de Vicente. O carro deles estava estacionado mais à frente e quando nosso passou fiz-lhes adeus. Foi nessa altura que me apercebi das lágrimas de Helena, foi nessa altura que as minhas lágrimas se transformaram num gemido ansioso e sem ar. Um dia depois da minha decisão de começar um diário não poderia haver acontecimento mais disruptivo. Mais tarde, já em casa, a Deolinda foi chamada para ir trabalhar. Que orgulho que eu tenho na Helena e na sua coragem de sangue guerreiro. Ela em moçambique e eu numa cadeira de rodas por trás das redes da refinaria.

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