2024/10/25
Lisboa e os seus subúrbios continuam a arder. As forças policiais mataram um homem de 42 anos na Cova da Moura. O homem de nacionalidade cabo-verdiana e raça negra, morava no bairro do Zambujal. O Zambujal é um bairro da Freguesia de Alfragide que pertence ao município da Amadora. Etimologicamente, o nome deriva do árabe berbere az-zambujj, que significa Oliveira. A sua situação geográfica coloca-o a sul da Freguesia da Buraca e separada desta pelo IC19. Organizações e reorganizações à parte, o que para aqui interessa é a situação marginal do bairro e a pobreza da sua população. Se juntarmos a tudo isto a origem racial de quem lá vive e a forma como país costuma tratar estes microcosmos, facilmente percebemos o porquê do que estamos a assistir. Tudo isto é triste e poderia ser evitado com políticas de integração mais consistentes, quer isto dizer, mais pragmáticas e viradas para atuações no terreno. Mas não é assim que a política funciona e os problemas vão-se arrastando, criando bolhas que mais cedo ou mais tarde acabam por rebentar. Não sou eu que o digo, provavelmente algo que eu ouvi num sítio qualquer, mas o grau civilizacional de um país mede-se pela forma como tratamos as minorias desprotegidas. E aqui poderia falar das vítimas de violência doméstica, dos idosos, da população que vive no limiar da pobreza, e de muito mais grupos que poderiam ser incluídos. Enfim, país que é pobre não tem vícios, palavras que vieram do Norte aquando da crise no começo da década anterior. Possivelmente cuidar daqueles que precisam é um vício, chamam-lhe dependência, subsidiodependência, um estigma que se assemelha a uma Estrela de David cosida na roupa. Os sinais têm estado à vista de todos. Cada vez mais as questões se resolvem com violência extrema e os tempos são de violência. Hoje é dia 25 e são 12 horas e 25 minutos. Estou a trabalhar e já passaram alguns dias sobre a morte de Odair Moniz. Eu estou longe do epicentro dos acontecimentos, que se concentram na zona da capital e arredores, mas nada me garante que não se estendam a outros locais do país. Para já a minha grande preocupação é a minha filha. Que a Venteira escape ao caos dos tumultos, é o meu desejo.
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