2024/10/22

Hoje sinto-me melhor. A avaliação é feita na casa de banho. Consigo ou não levantar-me da cadeira de rodas sozinho, baixar as calças e as cuecas, agarrar o pénis e direcioná-lo para a sanita. Este é o modo de aferição das minhas capacidades. Bem, não utilizo só este método. Levantar-me da cama, carregar nos botões do seu comando, tentar cortar a barba com a máquina, colocar os óculos na cara com a mão esquerda, tomar o pequeno-almoço sem necessitar de ajuda para limpar o prato, tomar a medicação, encher um copo com água da garrafa, introduzir a password no computador do trabalho, tentar fazer a minha assinatura sem deixar cair a caneta no chão, todas estas ações me fornecem indícios acerca da evolução da minha doença. Poderia ter feito uma lista maior, muito maior, mas esgotaria o assunto e saturaria este registo com excesso de informação. Voltei a ter disponível o “Copilot” no “Edge” do meu computador. Só o utilizo no trabalho e tenho algum receio do que ele me possa revelar se lhe perguntar por mim. Posso por exemplo perguntar-lhe quem é o Paulo Jorge Saboga da Silva Guerreiro para ficar a saber que eu não existo na net. É sempre bom tomar conhecimento da nossa irrelevância, uma singularidade que passa despercebida no universo conhecido. Sempre me senti bem no anonimato. Nada como uma boa dose de indiferença para nos mantermos seguros.

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