Lirismo metafísico


No corpo, a dormência dos instintos, escondidos por debaixo dos lençóis. Na alma, a consciência da minha existência dorme com a cabeça debruçada na almofada. Sou perfeito em virtude de causas exteriores, e a minha existência tem origem na perfeição da substância. É dela a imortalidade que faço transparecer no verbo.

Sou pedra cinzelada por mãos divinas. Sou escultura compulsiva e inevitável.

Pertenço a um modo e, dentro do modo, sou singular. Nada mais sou que uma decisão da consciência, uma consciência que eu tenho a ilusão de controlar.

 

No corpo, a dormência.

Na alma, os instintos controlam

com mãos de veludo

a minha existência.

Afirmo a imperfeição sem conhecer a perfeição.

Todo eu sou paixão, e esqueço a natureza do meu modo.

Sou coagido por poderes externos,

fortalecidos pela sua convicção.

São poderosos por afirmação e convictos por natureza.

Neles, a certeza é presença exterior.

A razão é sempre a mesma:

aumentar o poder da sua existência.

 

Pergunto-me se cumpri a minha natureza.

Nesta fase transitória,

o fim não é condicionado por escolhas induzidas.

Se entendi o porquê, talvez possa levar comigo essa ilusão.


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