2024/10/30
Quantas palavras poderia eu colocar nesta falsa folha de papel para descrever estes últimos dias? Penso que muitas, e, mesmo assim, não diria tudo. Dizer que estou pior é um lugar-comum, uma inevitabilidade, tal como a morte. Todos os dias, uma parte do meu corpo cede à doença. Hoje uma perna, amanhã um braço, outro dia uma mão. À noite, é sempre a cabeça que cede e, com ela, um pouco do que me mantém vivo: a vontade. As pequenas coisas do dia a dia deixam-me frustrado e nem mesmo a boa vontade de quem me rodeia consegue fazer-me esquecer que o fim está próximo e que o meu estado será sempre mais degradante. No meio de tudo isto, poderia encontrar prazer nas outras pequenas coisas que ainda me fazem sonhar. Escrever, ouvir música, ler, prazeres que me sobram, mas que também me serão roubados, tornam-se cada vez mais difíceis e dependentes de outros. Entretanto, o nosso carro avariou. Um rato, ou ratazana, que eu não cheguei a ver, entreteve-se a fazer ninho no motor do automóvel. Pelo caminho, roeu fios e mais umas coisas que eu não sei identificar. Se alguém o quiser fazer, que me peça as fotografias enviadas pela oficina. Enfim, o nosso meio de transporte, com apenas um ano, já lá foi duas vezes. São javalis, são ratos, são azares que se juntam a todos os outros que me têm perseguido nestes últimos anos. Não sou pessoa de acreditar em bruxas e encomendas do diabo, mas não foi com espanto que me vi aceitar, com naturalidade, a proposta da Deolinda para pedir a alguém que verificasse a existência de um mau-olhado. Parece que o azeite espirrou, tal era o tamanho do dito cujo. Aparentemente, eu e ela éramos invejados, o que provocava tão nefastas vibrações. Safou-se a minha filha, que, pelos vistos, não provoca esses sentimentos nos outros. O que dizer de tudo isto? Talvez o único facto que mereça aqui referência seja a minha desistência de princípios científicos e o render-me, indefeso, ao lado negro da vida, sem questionar o porquê nem estudar o assunto, aderindo de coração e alma aos enigmas que nos fazem suspeitar de uma grandeza que não temos. Já obtive resposta da editora e esta não foi agradável. Já é degradante o suficiente ter de pagar para ser lido. Pelos vistos, o preço aumentou para 1800 EUR. O processo é o mesmo: tenho de adquirir 100 exemplares à módica quantia de 18 EUR. Tenho dinheiro para o fazer, mas a Deolinda não concorda com o facto de termos de ficar com mais livros em casa, livros esses que não serão vendidos. Argumenta ela que não é justo obrigarmos os nossos amigos a comprar mais um livro. Melhor seria dá-los como recompensa por me terem lido e só precisaríamos de 50. Sei que ela tem razão, mas não foi por isso que me doeu menos ver, refletida nas suas palavras, a insignificância do meu sonho. Respondi-lhe, maldisposto, que, se fosse necessário, se queimava o excedente literário como combustível para a lareira, e ela respondeu-me que, se eu quisesse, poderia acompanhar a minha obra. Nenhum de nós quis dizer o que disse, mas são assim as discussões entre quem se ama, porque sabem que o perdão virá a seguir. Mesmo sabendo que o perdão está garantido, a vontade que tinha de editar o meu romance foi ferida de morte. Mesmo assim, enviei um mail para a editora propondo uma redução de custo, mas fi-lo sem convicção, mais por obrigação, pelo empenho da minha irmã, que tanto deu dela para que a obra se concretizasse. Estou no trabalho e já chorei na casa de banho com a minha amiga Ana, que é um dos meus Anjos da Guarda, talvez aquele que mais lágrimas tenha visto escorrer pelos meus olhos. É quase uma da tarde, estou à espera dela para me levar a almoçar. Ficou muito por dizer, mas tudo o que escrevo tem de ser verbalizado, o que me deixa desconfortável. Que saudades que eu tenho de uma caneta e de um papel, da intimidade desses objetos. “O que foi não volta a ser, mesmo que muito se queira, e querer não é poder.” Estes versos que o Tim cantou fazem todo o sentido. Por hoje é tudo, até qualquer dia.
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