2024/11/26
Continuo experimentando o ditado do programa informático de escrita. Hoje liguei-o ao microfone que comprei e melhorei a qualidade da minha escrita. Quem me dera poder dizer o mesmo acerca da minha qualidade de vida. Nem sempre se tem o que é merecido. Pode parecer falta de humildade ou atrevimento, mas é apenas uma constatação de um facto. E qual é esse facto? É aquele em que se admite que uma doença como a minha não é castigo para ninguém. A conversa não me pode sair de outra maneira e sou obrigado a repetir-me. Tenho um colchão novo ligado à eletricidade. Todo eu sou elétrico: a cadeira, o telemóvel, o elevador, o portátil, o tablet, a máquina de barbear, a escova de dentes, o relógio, o medidor da qualidade do ar, os auscultadores, a mão que escreve, os olhos que leem, o relógio que mede o oxigénio no meu sangue, o caminho para casa, o microfone para onde cuspo estas palavras e todo um mundo de promessas que não irão ser cumpridas. Hoje foi mais um dia, mais um dia onde o meu exemplo serviu de corda para alguém se agarrar. Se sou melhor por isso? É evidente que não, mas sinto que talvez a minha vida não tenha sido em vão, que esta maldita doença serviu para me tornar uma pessoa melhor. Cantei e toquei viola quando me cortaram os intestinos. Escrevi e publiquei o meu primeiro romance quando me enamorei por ELA. Perdi a inveja, a soberba, o ciúme e, por incrível que pareça, também perdi a raiva. No meio de tudo isto, tenho a sensação de ter ganho alguma coisa a que não sei dar nome. Não me quero ir embora sem a batizar.
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