Eu também estou numa tenda!Já há muito tempo que não ficava tão orgulhoso com imagens nas televisões generalistas: um movimento social de repúdio pela inaptidão generalizada para cumprir um dos preceitos da constituição portuguesa. Mais orgulhoso me sinto pela forma ordeira como estes movimentos se organizaram. As autoridades tiveram de desenterrar um decreto-lei de 1974 para justificar a sua acção, por pouco que não recuavam longe demais. Enfim, 74 é um bom ano para relembrar, que mais não seja, porque valida uma grande parte das suas reivindicações, a começar pela habitação. Eu já estou a ouvir as vozes da razão e da moral advogando o cumprimento escrupuloso das leis nacionais, e fazendo eco com alguns deputados da nossa assembleia, que preconizavam um tratamento mais musculado, com o recurso a muros e, porque não, à execução sumária daquela “esquerdalha” radical e inútil. Possivelmente são sensíveis a algumas das tatuagens presentes na manifestação, como se não bastassem os piercings e os cortes de cabelo à FMM. Mas as acusações foram mais longe: meninos mimados que não fazem nenhum e vivem no “bem bom” da casa dos pais, adoradores do culto comunista, malta drogada que fuma umas “merdas”, a cocaína não é para todos os bolsos, mesmo sendo, na nossa costa, mais comum que a sardinha, e por aí fora, até desaguarem na suprema acusação. Afinal, isto é, uma “trend”, uma cena importada de Espanha. Querem lá ver que esta cambada de energúmenos mal despidos, agora dedica-se à moda? Qualquer dia andam para aí a reivindicar o preço dos combustíveis em Espanha.
Agora, falando a sério. A falta de habilitação é um grave problema, para o qual, sucessivos governos se têm mostrado incapazes de resolver. É um problema que extravasa as nossas fronteiras, mas que nos afecta de modo particular, também devido aos baixos salários dos portugueses. A situação tem vindo a piorar e, finalmente, vejo os jovens na rua. Afinal estão vivos, e dispostos a deixar o conforto do lar, e as noites de boémia, para manifestar o seu desagrado. Eu não descontei 43 anos para ter de decidir entre a “liberdade” de circulação nas praças de Lisboa e do Porto, e o direito, mesmo em desobediência passiva (o que seria a Índia sem ela), de reclamar por habitação. Eu já fiz a minha escolha e, tal como nos jovens, tenho muito orgulho nela. E mais não digo!