domingo, 12 de julho de 2026

A minha máquina de escrever não tem as teclas de pontuação

 Ricardo Rodrigues Ribeiro é escritor sem fama nem proveito e para manter vivo o seu sonho foi obrigado a vender teclas da sua máquina de escrever algo que fez a contragosto após uma cuidadosa avaliação de funções que culminou com a extração de tudo o que estivesse relacionado com a pontuação aboliu também a utilização de letras maiúsculas no meio dos seus textos se a fome assim o obrigava levaria o sacrifício até às últimas consequências a folha de papel que primeiro se sujeitou a esta violência rítmica a este caos provocador esta angústia sem sentido foi  parar ao caixote do lixo o mesmo destino tiveram as suas irmãs filhas da mesma resma todas padecendo de orações mal rezadas e frases sem altar onde dormir com este resultado não chegaria longe e chegou a arrepender-se de ter tomado a decisão de castrar a sua máquina nunca mais conseguiria escrever um texto completo e foi com este pensamento que agarrou na máquina para a deitar fora e terminar com a sua inglória carreira de escritor falhado quando uma última folha irmã esquecida por debaixo da vida levantou uma ponta que dobrou numa vênia respeitosa solicitou a sua atenção não me jogues fora assim branca como vim ao mundo sem uma única frase de consolo o escritor não escondeu a sua tristeza quando lhe confessou sinto-me impotente para satisfazer o teu desejo estou mais vazio do que tu e esse vazio não tem fundo a folha não respondeu mas manteve a vênia com a ponta dobrada na direção do escritor que lhe pegou colocou na máquina e fez este texto

Sem nada que me prenda nem pontos para acabar dou-te de mim as palavras que não me deixaram chegar se reticências escrevi não foi por ti que as senti nunca menti travessões nem me vendi por dois pontos e as vírgulas que espalhei foram meras exclamações outra forma de dizer o quanto sinto por mim e se o confesso assim numa folha como tu é porque o meu corpo vai nu e não se sabe cobrir tudo o que levo são pontos aos quais faltam perguntas mas se um dia encontrar um final onde possa descansar será em ti bela folha que o irei colocar

terça-feira, 7 de julho de 2026

Noventa mais um

 

Noventa mais um, foi esse o momento em que o sonho acabou. Ficou por fazer o que ainda não foi feito.

O meu coração acreditou que era possível, mesmo quando a razão lhe sussurrava ao ouvido as nossas fraquezas. Assim é o coração, cego de paixão só pensa em si. Não fosse o meu lado racional, e teria carpido lágrimas de sangue. Mais uma vez a pátria não se cumpriu e afogou-se no desalento dos heróis.
   Está na altura de entregar os Óscares do insucesso. A cerimônia já tinha data marcada, e nem os sucessivos adiamentos lhe quebraram o ânimo. Tal como no cinema, eu gosto de apreciar a obra, e recuso linchamentos públicos. Por esse motivo, não ouvirão, dos meus olhos, palavras de desdém com destinatário nas entrelinhas.
    Falemos, então, da obra. O jogo defraudou as minhas expectativas, muito por culpa do nervosismo e do respeito mútuo. Na primeira parte, as equipes encaixaram, e dividiram as oportunidades. Na segunda parte o espetáculo piorou. Salvava-se o resultado que, de alguma forma, surpreendia por conseguirmos manter a inviolabilidade da nossa baliza. Depois vieram os últimos minutos do tempo regulamentar. As nossas substituições entregaram o jogo aos espanhóis. Teria sido possível aguentá-los mais trinta minutos, e levar a decisão para a marca das grandes penalidades? Fiquei com a estranha sensação, de que era esse o pensamento de alguns jogadores e, quem sade, também do nosso treinador. Talvez a memória da final da Liga das Nações tenha perturbado a concentração no momento daquele lance. Pareceu tudo tão simples e fácil, quase uma inevitabilidade.
   Noventa mais um, e o sonho acabou. Como sempre, gostei de sonhar, e permiti ao coração, acreditar, mesmo contrariando a minha razão. Fica para a próxima, seja ela quando for. Assim é o nosso fado, assim é o coração.

domingo, 5 de julho de 2026

Tudo o que tenho

 

Tudo o que tenho

 

 

Tudo o que tenho é o som diluído de um sonho a cair

num corpo deitado que fica acordado e teima em resistir

por debaixo da manta que finge aquecer

o frio tão frio faz-me esquecer

 

O segredo que eu guardo no corpo cansado ficou por dizer

ao ouvido mouco que teima em ser surdo ao que fiz sem querer

Sentado na cama evito cair

no chão que é frio de onde não sei sair

 

Deitado na cama vejo no relógio o tempo a passar

as horas dolentes fingem-se morosas, sem nada para dar.

E eu tão carente, doente, indecente

espero o Sol sempre a nascente

 

Tudo o que tenho, tudo o que dou, tudo o que espero, e o que sou;

Tudo o que importa, e faz viver, vem do que penso,

e faz sofrer.

sábado, 4 de julho de 2026

Sempre à espera de algo

 

Como num jornal de papel amarelado

As palavras de 2024 desvanecem o palavreado retórico das promessas para 2025.

Não as tivesse eu lido no ecrã

e teriam o sabor de tinta impressa.

Todos os anos a mesma Esperança,

o mesmo copo de vinho vertido da garrafa primordial de onde se vertem todos os álcoois.

Hoje, o cigarro já apagado há mais de 1 ano espera por mais uma passa,

2 passas, 3 passas, 4 passas... 12 passas,

e eu passo,

como sempre passei,

passo atrás de passo,

umas vezes o esquerdo,

outras o direito.

Todos os anos uma promessa,

a mesma promessa reconvertida e atualizada, 2.0, 3.0, 4.0, 5.0, 6.0, 7.0...

2025 a pensar como 2024 poderia ter sido 2026,

sempre o ano errado.

Todos os anos nos reinventamos

e deitamos fora a derme velha com vergonha de a reutilizar.

O ano que vem será mais 1 ano,

e o que passou será ano do passado.

O passado e o futuro assim tão perto,

entalando o presente,

que embora renitente,

é o único momento em que realmente celebramos.

No fim de contas,

quem cala consente,

e repetimos princípios no meio de palavras bonitas,

Inventando gestos numa ilusão de modernidade.

Feliz Ano-Novo,

ano que ainda não nasceu, mas já fez as suas vítimas.

Feliz 2025, 26, 27, 28, 29, 30, 31 e 2, e 3, e 4, e…

Feliz o momento em que te encontras,

feliz o momento em que o pensas,

feliz o momento em que o partilhas,

feliz o ano todos os dias…

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Portugal - Croácia

 É sempre a mesma conversa. Passam os anos e esta situação repete-se de cada vez que vejo a seleção jogar. O meu amor à bandeira e ao hino resume-se, nestes dias, a noventa minutos de sofrimento. Uma bola que rola pelo relvado, chutada por pés milionários. Mas isso não me interessa, são os “nossos” pés, o que de melhor produzimos para dar pontapés. É desporto e arte, paixão e rancor, e tudo isto por amor.

Ontem, tentei esquecer o assunto. Afinal, sou, ou não sou, imune a paixões coletivas, à febre da pertença, ao menor denominador comum que agrega por baixo o que é diferente por dentro. Deitado na cama, sucumbi à febre que une desigualdades numa narrativa comum.

Torci, esperneei, fechei olhos para não ver e contei os segundos finais maldizendo o cronômetro do árbitro. Adeus, Croácia, temos pena, mas assim é a vida. Venha a Espanha, que a alma lusa faz-nos sonhar impossíveis enquanto choramos, num fado, um poema de descrença. Venham esses Adamastores, que as nossas caravelas cá estarão para os dobrar.

A Espanha está a jogar um futebol bonito, cativante e eficiente. Após o primeiro jogo corrigiram os aspetos que levaram a esse, tão celebrado, empate. Juntamente com a França, é dos candidatos ,o que joga melhor futebol. Portugal é intermitente, um pouco inseguro, e por diversas vezes os jogadores aparentam uma desorientação pouco compatível com a sua qualidade. Mas isto é futebol, e tudo pode acontecer. Que a segunda-feira traga o pior de Espanha e o melhor de Portugal. Quero lá saber se o espetáculo vai ser bom, o que eu quero é vencer. Se assim não fosse, tinha comprado um bilhete para o teatro.  

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Em cada poema, uma desculpa

 

17/10/2019 16H29m

Sou um filho de Deus.

Tenho alma de pastor,

mas nas almas deste mundo,

só encontro raiva e dor.

Sou um corpo todo igual,

de matéria diferente.

Peça num mundo fatal,

que me quer Indiferente.

Poderia ser o futuro,

se dissesse ao meu irmão

para despir a pele de ódio

e entregar o coração.

Mas na raça ou na cor,

na Família ou no credo,

encontramos sempre razão

para viver com medo.

E o filho que eu fui,

o pai que hoje sou,

tem uma herança pesada,

um legado que não cuidou.

Peço-te perdão por tudo,

filha num mundo inocente,

se hipotequei o futuro,

só para viver o presente.

Sou um filho de Deus.

Tenho alma de impostor.

Não vale a pena juntar,

o sofrimento ao rancor.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

O Homem Sentado Na Sanita

 O Homem Sentado Na Sanita

 

Debruçado sobre si mesmo, o homem extirpa pedaços residuais do fundo biológico.

Tem consciência da vulnerabilidade intrínseca do gesto que o faz dobrar e, manobra a zona abdominal com inspirações profundas.

Procura um trilho que lhe devolva a verticalidade e, o alívio projetado num esgoto comum.

Sonha com o declínio da existência e não faz exigências. O fim é sempre certo e a sua aproximação inevitável.

Lá fora, a cidade respira normalmente. Ninguém se importa com a submissão sem condições. Ao seu lado, uma mão agarra na sua. É uma mão de outra estirpe, daquelas que não desistem e, insistem sem necessidade de argumentos.

Hoje não venci o combate. O Trono onde me sentei deixou-me dobrado, prostrado perante o monstro por cima do meu ombro.

Ele não precisa falar. O seu presente é o meu futuro. Sinto o hálito de todos os compostos químicos, que reagem no meu cólon. Todas as formulações que se pretendem importantes.

Saí como entrei; cansado da minha existência.

Eu também estou numa tenda!

Eu também estou numa tenda! Já há muito tempo que não ficava tão orgulhoso com imagens nas televisões generalistas: um movimento social de r...