A minha máquina de escrever não tem as teclas de pontuação
Ricardo Rodrigues Ribeiro é escritor sem fama nem proveito e para manter vivo o seu sonho foi obrigado a vender teclas da sua máquina de escrever algo que fez a contragosto após uma cuidadosa avaliação de funções que culminou com a extração de tudo o que estivesse relacionado com a pontuação aboliu também a utilização de letras maiúsculas no meio dos seus textos se a fome assim o obrigava levaria o sacrifício até às últimas consequências a folha de papel que primeiro se sujeitou a esta violência rítmica a este caos provocador esta angústia sem sentido foi parar ao caixote do lixo o mesmo destino tiveram as suas irmãs filhas da mesma resma todas padecendo de orações mal rezadas e frases sem altar onde dormir com este resultado não chegaria longe e chegou a arrepender-se de ter tomado a decisão de castrar a sua máquina nunca mais conseguiria escrever um texto completo e foi com este pensamento que agarrou na máquina para a deitar fora e terminar com a sua inglória carreira de escritor falhado quando uma última folha irmã esquecida por debaixo da vida levantou uma ponta que dobrou numa vênia respeitosa solicitou a sua atenção não me jogues fora assim branca como vim ao mundo sem uma única frase de consolo o escritor não escondeu a sua tristeza quando lhe confessou sinto-me impotente para satisfazer o teu desejo estou mais vazio do que tu e esse vazio não tem fundo a folha não respondeu mas manteve a vênia com a ponta dobrada na direção do escritor que lhe pegou colocou na máquina e fez este texto
Sem nada que me prenda nem pontos para acabar dou-te de mim as
palavras que não me deixaram chegar se reticências escrevi não foi por ti que
as senti nunca menti travessões nem me vendi por dois pontos e as vírgulas que
espalhei foram meras exclamações outra forma de dizer o quanto sinto por mim e
se o confesso assim numa folha como tu é porque o meu corpo vai nu e não se sabe
cobrir tudo o que levo são pontos aos quais faltam perguntas mas se um dia
encontrar um final onde possa descansar será em ti bela folha que o irei colocar
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