Noventa mais um
Noventa mais um, foi esse o momento em que o sonho acabou. Ficou
por fazer o que ainda não foi feito.
O meu coração acreditou que era possível, mesmo quando a razão lhe
sussurrava ao ouvido as nossas fraquezas. Assim é o coração, cego de paixão só
pensa em si. Não fosse o meu lado racional, e teria carpido lágrimas de sangue.
Mais uma vez a pátria não se cumpriu e afogou-se no desalento dos heróis.
Está na altura de entregar os Óscares
do insucesso. A cerimônia já tinha data marcada, e nem os sucessivos adiamentos
lhe quebraram o ânimo. Tal como no cinema, eu gosto de apreciar a obra, e recuso
linchamentos públicos. Por esse motivo, não ouvirão, dos meus olhos, palavras
de desdém com destinatário nas entrelinhas.
Falemos, então, da obra. O jogo defraudou as minhas
expectativas, muito por culpa do nervosismo e do respeito mútuo. Na primeira
parte, as equipes encaixaram, e dividiram as oportunidades. Na segunda parte o espetáculo
piorou. Salvava-se o resultado que, de alguma forma, surpreendia por conseguirmos
manter a inviolabilidade da nossa baliza. Depois vieram os últimos minutos do
tempo regulamentar. As nossas substituições entregaram o jogo aos espanhóis. Teria
sido possível aguentá-los mais trinta minutos, e levar a decisão para a marca
das grandes penalidades? Fiquei com a estranha sensação, de que era esse o
pensamento de alguns jogadores e, quem sade, também do nosso treinador. Talvez
a memória da final da Liga das Nações tenha perturbado a concentração no
momento daquele lance. Pareceu tudo tão simples e fácil, quase uma inevitabilidade.
Noventa mais um, e o sonho acabou. Como sempre, gostei de sonhar, e
permiti ao coração, acreditar, mesmo contrariando a minha razão. Fica para a próxima,
seja ela quando for. Assim é o nosso fado, assim é o coração.
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