Acabei! Um ano depois, acabei. O que começou como um exercício de memória ganhou vida própria, e foi necessário terminar a sua existência. Nunca pensei que o pudesse terminar. Quando cheguei ao sétimo ato, já só me restava a voz, que ditava pedaços de oralidade. O oitavo ato foi a Susana que o escreveu. Quinze mil palavras que não encontrariam eco em nenhum lugar. Percorri esse deserto com a convicção de que não haveria um oásis capaz de matar a minha sede. Teriam sido aquelas as últimas palavras a espelhar a minha criatividade? Tudo indicava que era esse o destino que me estava reservado. Mas, mais uma vez, eu consegui adiar o inevitável. Não foi sozinho que ganhei essa batalha; sem a Deolinda e a Mariana, nada disto faria sentido. Mas muitos mais nomes existem, representando as inúmeras mãos que têm segurado nas minhas. Também elas escrevem estes textos. Não me vou repetir e falar novamente nos meus olhos, e no milagre tecnológico que me permitiu terminar “A Vida e a Morte do Sr. Jorge”. Dez mil palavras que prolongaram esta história até ao décimo nono e último ato. Publiquei-os, um a um, sem revisão. Podem ter perdido coerência, ser pobres no estilo e padecerem de males ortográficos e gramaticais, além de uma pontuação errática, mas são honestos. Vou sentir falta do Jorge.
segunda-feira, 22 de junho de 2026
sábado, 20 de junho de 2026
Ressaca
A Ressaca. Quais os sintomas que indicam que estamos na presença de uma ressaca? O mais evidente é uma secura na boca, que nos faz pensar que as alterações climáticas invadiram o nosso corpo. Mas também temos os enjoos e as dores de cabeça, além da azia no estômago e das perturbações intestinais. Quando estes sintomas surgem em simultâneo, significa que a ressaca é grande e que o seu portador se encontra em condições impróprias para consumo. Este estado pode durar vários dias e vem acompanhado de pouca vontade para repetir a brincadeira.
Hoje é sábado, e faz três dias que vimos a apresentação de
Portugal no Mundial. Vislumbra-se o fim da ressaca nas palavras de Rúben Dias. O
álcool era de má qualidade, e logo depois do primeiro copo nunca mais conseguimos
atinar. Até parecia que nunca tínhamos bebido juntos. Os que foram à frente
perderam-se pelas ruelas do Bairro Alto. Os outros não os encontraram e foram
parar ao Cais do Sodré. Os últimos ficaram sozinhos e levaram uns tabefes no focinho;
só não levaram mais porque a noite acabou e os outros estavam satisfeitos. O
que vale é que o nosso irmão mais velho garantiu ao nosso pai que isto não volta
a acontecer. Aparentemente, o pai dos rapazes não os ensinou a beber, mas quem
sou eu para falar de copos e noitadas.
Seja como for, na terça lá estarei, sentado no meu sofá, com uma
mini da Sagres para dar sorte; há que respeitar os patrocinadores. Só não bebo
uma litrada de super da Galp, porque a gasosa está pelos olhos da morte.
Adiei a consulta de fisioterapia para poder cumprir a minha obrigação
como português. Às 18H, cá estarei, entoando o hino a plenos Pulmões. Invocarei
os heróis e o mar, e o nobre povo que eles representam. Da Nação procurarei,
entre as brumas, os antepassados que a honraram, e irei convidá-los para o meu sofá.
Juntos vamos marchar contra tudo e contra todos, porque só a vitória nos irá
saciar esta sede de glória.
Uma palavra curta sobre o Uzbequistão. Situa-se na Ásia Central,
é quatro vezes maior que Portugal e não tem costa marítima. Foi, até 1991, uma
das repúblicas socialistas soviéticas. Tem fronteiras com cinco países,
incluindo o Afeganistão, nenhum dos quais tem contacto com o mar. A maior parte
do seu território é composto por planícies e zonas desertas. A sua história está
ligada à rota da seda. Ao contrário de Portugal, é um país com uma média de
idades muito baixa, cerca de trinta anos, e com elevado crescimento demográfico
desde que se tornou independente. A língua russa ainda perdura, principalmente
nas trocas comerciais. O Islão é a religião principal, sunitas, mas também têm
uma minoria cristã ortodoxa, resquícios do domínio russo.
E, sobre a ressaca de quarta, não tenho mais nada a dizer.
quarta-feira, 17 de junho de 2026
Navegando pelo Mundial
O Mundo está dividido entre guerras e o mundial de futebol. Por estes dias, todos vestem a camisola de uma qualquer seleção. A maior parte por convicção nacional, mas também existem outros motivos para se vestir uma camisola. Seja lá por que motivo for, em frente do ecrã, todos tomam um partido. Muitas vezes, existem variados motivos para se simpatizar com uma seleção, e estes podem ser distintos e contraditórios. Tomemos como exemplo o caso do Irão. E porquê o Irão? Porque este exemplo espelha na perfeição o meu raciocínio. Vejamos então os motivos para apoiar.
Começo pelo óbvio orgulho nacional. Quanto a este, nada mais há
a acrescentar. A narrativa da nacionalidade continua a ser das mais
consensuais. A próxima aproxima-se da simpatia pelos mais desfavorecidos. Quem
a defende pode sempre alegar que não é justo o Irão estar a jogar num país
hostil. Depois, temos os antiamericanos, e estes existem de diversas formas e
feitios. Temos também os apoiantes do eixo Rússia/China. Neste caso, misturam-se
razões que remontam ao início do século XX. O apelo religioso também será um motivo
forte. O efeito do Deus único e do seu entendimento extravasa para todos os
setores da sociedade. Os povos árabes nunca foram muito unidos e, por vezes,
até bastante hostis, mas acredito que o apelo civilizacional possa ter algo a
dizer. Temos sempre a dicotomia entre a esquerda e a direita, que pode levar a
apoios inesperados. É sempre importante estar do outro lado da barricada. A água
e o azeite nasceram para não se misturar, e a sua repulsa ainda hoje é dada como
exemplo. O ódio ao mundo ocidental não deve ser desprezado nesta lista. Acabo
com o antissemitismo, que, sendo ancestral, é uma razão com aval histórico.
O mesmo número de razões existirá para não apoiar a seleção do
Irão. O futebol jogado, para muitos, ficará sempre em segundo plano. Qual o português
que não apoiou o Senegal contra a França? E qual foi o que não sorriu de
satisfação com o empate de Cabo Verde defronte da Espanha? E a triste constatação
da superioridade do Messi, que marcou três golos no encontro entre a Argentina
e a Argélia e nos deixou roídos de inveja?
Hoje joga Portugal, e a comunicação social tem desempenhado o
seu papel de terapeuta motivacional. Nós somos melhores que o Congo, e ponto
final. Onde é que já se viu chegarem com faixas de leopardos e malas a condizer?
Só o que faltava era terem esfolado os pobres animais para produzir o cenário. O
que sabemos do Congo não chega para grandes ódios. O segundo maior país de África,
em extensão territorial, é uma das maiores reservas minerais do mundo. Vive
atualmente uma perigosa crise política, onde a mudança da constituição está em
cima da mesa, de modo a permitir um terceiro mandato do atual presidente. Tem Ébola
e forças rebeldes, e fica lá longe, no interior de um continente que foi
dividido entre europeus. Nasceu em 1960, tem mais cinco anos que eu e continua
a sofrer com as dores de um crescimento precoce, tentando aglutinar numa nação
mais de duzentos e cinquenta grupos étnicos. É desse país que vem a seleção que
vamos defrontar hoje, pelas 18 horas. Quanto ao nosso país, basta estar atento,
pois os sinais estão todos à vista.
Já tenho o cachecol e a cerveja no frigorífico;
só me resta esperar.
segunda-feira, 15 de junho de 2026
Uma explicação necessária 2026/06/15
Um ano e seis meses depois, pego neste projeto falhado. E falhou porquê? Porque eu pensei que estava a dizer as derradeiras palavras. Imaginei um diário inacabado, precocemente interrompido pelas circunstâncias. No final do ano de 2024, eu tinha assumido totalmente a minha incapacidade de comunicação. A escrita perdera-se e a voz começara a seguir o mesmo caminho. Entrei em 2025 com a convicção de que iria viver o meu último ano. O que se passou então? Passou-se a vida com os seus imponderáveis. Foi a recompensa por lhe ter aberto a porta. Deixei entrar tudo o que ela ainda tinha para me dar. Seria impossível deixar um registo fiel de tudo o que aconteceu em tão poucas palavras. Tivesse eu continuado este diário, e o testemunho estaria gravado, mas só agora o consigo fazer. Bendita a Filomena, a Deolinda, a Luana, a APELA e a tecnologia que me permite usar o computador com os olhos. É esse o milagre por detrás das minhas palavras. Tenho escrito compulsivamente e publicado numa base diária. Para isso, recuperei os três blogues onde publicava. Recuperei a minha voz e a esperança de a levar até aos meus últimos dias. Sendo legítima, não deixa de ser apenas uma esperança. Se ela se concretizará, só o futuro o dirá. Entretanto, vou deixando um rasto de palavras que são apenas cinco minutos de existência.
2024/11/26
Continuo experimentando o ditado do programa informático de escrita. Hoje liguei-o ao microfone que comprei e melhorei a qualidade da minha escrita. Quem me dera poder dizer o mesmo acerca da minha qualidade de vida. Nem sempre se tem o que é merecido. Pode parecer falta de humildade ou atrevimento, mas é apenas uma constatação de um facto. E qual é esse facto? É aquele em que se admite que uma doença como a minha não é castigo para ninguém. A conversa não me pode sair de outra maneira e sou obrigado a repetir-me. Tenho um colchão novo ligado à eletricidade. Todo eu sou elétrico: a cadeira, o telemóvel, o elevador, o portátil, o tablet, a máquina de barbear, a escova de dentes, o relógio, o medidor da qualidade do ar, os auscultadores, a mão que escreve, os olhos que leem, o relógio que mede o oxigénio no meu sangue, o caminho para casa, o microfone para onde cuspo estas palavras e todo um mundo de promessas que não irão ser cumpridas. Hoje foi mais um dia, mais um dia onde o meu exemplo serviu de corda para alguém se agarrar. Se sou melhor por isso? É evidente que não, mas sinto que talvez a minha vida não tenha sido em vão, que esta maldita doença serviu para me tornar uma pessoa melhor. Cantei e toquei viola quando me cortaram os intestinos. Escrevi e publiquei o meu primeiro romance quando me enamorei por ELA. Perdi a inveja, a soberba, o ciúme e, por incrível que pareça, também perdi a raiva. No meio de tudo isto, tenho a sensação de ter ganho alguma coisa a que não sei dar nome. Não me quero ir embora sem a batizar.
domingo, 14 de junho de 2026
2024/11/22
Por altura do 25, o conflito reabre-se. Este ano, pela primeira vez, a comemoração do dia 25 de novembro tem lugar na Assembleia da República. A data, por motivos que não podiam deixar de ser políticos, tornou-se campo de batalha entre a direita e a esquerda, fazendo tábua rasa dos acontecimentos históricos. Pelo meio, o 11 de março é esquecido, quem sabe por não ter acontecido no dia 25 desse mês. A minha memória é fraca para ir buscar ao meu passado factos que ocorreram quando eu tinha 10 anos. Do que me lembro, recordei 3 nomes: Jaime Neves, que saiu com os comandos da Amadora, bem perto de minha casa, vá-se lá saber para onde; Ramalho Eanes, o herói em cima do Renault 16, de camisa aberta e peito feito às balas; e, por fim, o eterno Mário Soares, o político que chefiava o partido vencedor das primeiras eleições legislativas no 25/04/1975. Falta-me aqui um nome: Vasco Gonçalves, o homem que simbolizou o PREC. Para quê discutir hoje o valor de um dia que deriva diretamente do 25 primordial? Primeiro o pai, depois o filho, assim manda a cronologia, de modo que não seja necessária uma máquina do tempo para entender a história. Se o primeiro 25 é consensual, já o segundo está afetado de sangue cruzado. Se, no primeiro, os interesses militares faziam da corporação um conjunto unitário, no segundo, as vontades não nos levam a conclusões óbvias. Do que li, cheguei à conclusão de que haverá sempre lugar para múltiplas interpretações, conforme os gostos e as vontades, mas uma certeza eu tenho: a divisão nunca será entre a esquerda e a direita. Na nova narrativa, falta sempre um dos protagonistas: o PS e Mário Soares. Historicamente, nunca ficou clara a intenção que levou os paraquedistas a sair do quartel, mesmo que não dê jeito essa incerteza. É, certamente, um dos períodos mais ricos da nossa história recente.
quinta-feira, 11 de junho de 2026
2024/11/06
Trump ganhou as eleições, ratos roem o interior do meu carro, vou avançar para a publicação do meu livro, estou doente vai para 6 dias. De tanto para dizer restam pequenas frases. Poderia separá-las por stops e assim pareceria um telegrama. Quando se quer tudo, e tudo se pode reduzir a tão pouco. Poderia ter acrescentado que se continua a morrer no Líbano e na faixa de Gaza, mas quem é que se preocupa com isso se praticamente já esquecemos a guerra da Ucrânia, telenovela desgastada que repete o argumento sem se descobrir o fim. Ah, já me esquecia, aqui mesmo ao nosso lado um fenómeno meteorológico a que chamam o nome de gota fria, causou morte e devastação na região de Valença.
Estarei morto? Ainda não, pelo menos a julgar pelas palavras da
médica que avaliou a minha condição respiratória. Lá me vou safando com os 90 e
tal por cento de oxigénio que o meu diafragma consegue sugar para dentro dos
meus pulmões. Caminham para se tornar uns foles sem graça, mas por enquanto vão
cumprindo a sua função o que me coloca num limbo entre o vegetal pensador que
mal se mexe e a pedra filosófica com residência fixa. Estou destinado a ser
monitorizado, desta vez com serviço ao domicílio. Ficou programada uma visita
daqui a um mês. Nessa visita um rapaz, ou uma rapariga, farão a entrega de um
equipamento que dirá de sua justiça; se eu estou, ou não, a respirar em
condições, se o oxigénio entra o suficiente e se o dióxido de carbono sai o que
deveria sair. Por enquanto vou-me safando da máscara noturna que irá piorar
ainda mais as minhas insónias. Como se costuma dizer, “enquanto o pau vai e vem
folgam as costas “. Os meus braços pioram a olhos vistos, e para agravar a
situação deixei de ir à fisioterapia, pelo menos assim aconteceu nas 2 últimas
semanas. De quem é a culpa? A culpar alguém, talvez as circunstâncias. Por
exemplo, o meu carro que continua cheio de ratos e que neste momento se
encontra estacionado numa oficina em Beja. Mas como bom português não consigo
ver tudo negro e lá vejo o rosa na forma de um Peugeot 2006 emprestado pela
empresa. Ironia do destino o carro é preto.
Eu também estou numa tenda!
Eu também estou numa tenda! Já há muito tempo que não ficava tão orgulhoso com imagens nas televisões generalistas: um movimento social de r...
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