terça-feira, 9 de junho de 2026

2024/10/30

Quantas palavras poderia eu colocar nesta falsa folha de papel para descrever estes últimos dias? Penso que muitas, e, mesmo assim, não diria tudo. Dizer que estou pior é um lugar-comum, uma inevitabilidade, tal como a morte. Todos os dias, uma parte do meu corpo cede à doença. Hoje uma perna, amanhã um braço, outro dia uma mão. À noite, é sempre a cabeça que cede e, com ela, um pouco do que me mantém vivo: a vontade. As pequenas coisas do dia a dia deixam-me frustrado e nem mesmo a boa vontade de quem me rodeia consegue fazer-me esquecer que o fim está próximo e que o meu estado será sempre mais degradante. No meio de tudo isto, poderia encontrar prazer nas outras pequenas coisas que ainda me fazem sonhar. Escrever, ouvir música, ler, prazeres que me sobram, mas que também me serão roubados, tornam-se cada vez mais difíceis e dependentes de outros. Entretanto, o nosso carro avariou. Um rato, ou ratazana, que eu não cheguei a ver, entreteve-se a fazer ninho no motor do automóvel. Pelo caminho, roeu fios e mais umas coisas que eu não sei identificar. Se alguém o quiser fazer, que me peça as fotografias enviadas pela oficina. Enfim, o nosso meio de transporte, com apenas um ano, já lá foi duas vezes. São javalis, são ratos, são azares que se juntam a todos os outros que me têm perseguido nestes últimos anos. Não sou pessoa de acreditar em bruxas e encomendas do diabo, mas não foi com espanto que me vi aceitar, com naturalidade, a proposta da Deolinda para pedir a alguém que verificasse a existência de um mau-olhado. Parece que o azeite espirrou, tal era o tamanho do dito cujo. Aparentemente, eu e ela éramos invejados, o que provocava tão nefastas vibrações. Safou-se a minha filha, que, pelos vistos, não provoca esses sentimentos nos outros. O que dizer de tudo isto? Talvez o único facto que mereça aqui referência seja a minha desistência de princípios científicos e o render-me, indefeso, ao lado negro da vida, sem questionar o porquê nem estudar o assunto, aderindo de coração e alma aos enigmas que nos fazem suspeitar de uma grandeza que não temos. Já obtive resposta da editora e esta não foi agradável. Já é degradante o suficiente ter de pagar para ser lido. Pelos vistos, o preço aumentou para 1800 EUR. O processo é o mesmo: tenho de adquirir 100 exemplares à módica quantia de 18 EUR. Tenho dinheiro para o fazer, mas a Deolinda não concorda com o facto de termos de ficar com mais livros em casa, livros esses que não serão vendidos. Argumenta ela que não é justo obrigarmos os nossos amigos a comprar mais um livro. Melhor seria dá-los como recompensa por me terem lido e só precisaríamos de 50. Sei que ela tem razão, mas não foi por isso que me doeu menos ver, refletida nas suas palavras, a insignificância do meu sonho. Respondi-lhe, maldisposto, que, se fosse necessário, se queimava o excedente literário como combustível para a lareira, e ela respondeu-me que, se eu quisesse, poderia acompanhar a minha obra. Nenhum de nós quis dizer o que disse, mas são assim as discussões entre quem se ama, porque sabem que o perdão virá a seguir. Mesmo sabendo que o perdão está garantido, a vontade que tinha de editar o meu romance foi ferida de morte. Mesmo assim, enviei um mail para a editora propondo uma redução de custo, mas fi-lo sem convicção, mais por obrigação, pelo empenho da minha irmã, que tanto deu dela para que a obra se concretizasse. Estou no trabalho e já chorei na casa de banho com a minha amiga Ana, que é um dos meus Anjos da Guarda, talvez aquele que mais lágrimas tenha visto escorrer pelos meus olhos. É quase uma da tarde, estou à espera dela para me levar a almoçar. Ficou muito por dizer, mas tudo o que escrevo tem de ser verbalizado, o que me deixa desconfortável. Que saudades que eu tenho de uma caneta e de um papel, da intimidade desses objetos. “O que foi não volta a ser, mesmo que muito se queira, e querer não é poder.” Estes versos que o Tim cantou fazem todo o sentido. Por hoje é tudo, até qualquer dia.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

2024/10/25

 Lisboa e os seus subúrbios continuam a arder. As forças policiais mataram um homem de 42 anos na Cova da Moura.  O homem de nacionalidade cabo-verdiana e raça negra, morava no bairro do Zambujal. O Zambujal é um bairro da Freguesia de Alfragide que pertence ao município da Amadora. Etimologicamente, o nome deriva do árabe berbere az-zambujj, que significa Oliveira. A sua situação geográfica coloca-o a sul da Freguesia da Buraca e separada desta pelo IC19. Organizações e reorganizações à parte, o que para aqui interessa é a situação marginal do bairro e a pobreza da sua população. Se juntarmos a tudo isto a origem racial de quem lá vive e a forma como país costuma tratar estes microcosmos, facilmente percebemos o porquê do que estamos a assistir. Tudo isto é triste e poderia ser evitado com políticas de integração mais consistentes, quer isto dizer, mais pragmáticas e viradas para atuações no terreno. Mas não é assim que a política funciona e os problemas vão-se arrastando, criando bolhas que mais cedo ou mais tarde acabam por rebentar. Não sou eu que o digo, provavelmente algo que eu ouvi num sítio qualquer, mas o grau civilizacional de um país mede-se pela forma como tratamos as minorias desprotegidas. E aqui poderia falar das vítimas de violência doméstica, dos idosos, da população que vive no limiar da pobreza, e de muito mais grupos que poderiam ser incluídos. Enfim, país que é pobre não tem vícios, palavras que vieram do Norte aquando da crise no começo da década anterior. Possivelmente cuidar daqueles que precisam é um vício, chamam-lhe dependência, subsidiodependência, um estigma que se assemelha a uma Estrela de David cosida na roupa. Os sinais têm estado à vista de todos. Cada vez mais as questões se resolvem com violência extrema e os tempos são de violência. Hoje é dia 25 e são 12 horas e 25 minutos. Estou a trabalhar e já passaram alguns dias sobre a morte de Odair Moniz. Eu estou longe do epicentro dos acontecimentos, que se concentram na zona da capital e arredores, mas nada me garante que não se estendam a outros locais do país. Para já a minha grande preocupação é a minha filha. Que a Venteira escape ao caos dos tumultos, é o meu desejo.

domingo, 7 de junho de 2026

2024/10/22

Hoje sinto-me melhor. A avaliação é feita na casa de banho. Consigo ou não levantar-me da cadeira de rodas sozinho, baixar as calças e as cuecas, agarrar o pénis e direcioná-lo para a sanita. Este é o modo de aferição das minhas capacidades. Bem, não utilizo só este método. Levantar-me da cama, carregar nos botões do seu comando, tentar cortar a barba com a máquina, colocar os óculos na cara com a mão esquerda, tomar o pequeno-almoço sem necessitar de ajuda para limpar o prato, tomar a medicação, encher um copo com água da garrafa, introduzir a password no computador do trabalho, tentar fazer a minha assinatura sem deixar cair a caneta no chão, todas estas ações me fornecem indícios acerca da evolução da minha doença. Poderia ter feito uma lista maior, muito maior, mas esgotaria o assunto e saturaria este registo com excesso de informação. Voltei a ter disponível o “Copilot” no “Edge” do meu computador. Só o utilizo no trabalho e tenho algum receio do que ele me possa revelar se lhe perguntar por mim. Posso por exemplo perguntar-lhe quem é o Paulo Jorge Saboga da Silva Guerreiro para ficar a saber que eu não existo na net. É sempre bom tomar conhecimento da nossa irrelevância, uma singularidade que passa despercebida no universo conhecido. Sempre me senti bem no anonimato. Nada como uma boa dose de indiferença para nos mantermos seguros.

sábado, 6 de junho de 2026

2024/10/19

 Já nem sei quando foi a última escrevi alguma coisa para o meu suposto diário. Não terá sido por falta de acontecimentos, nem de batalhas pessoais, pois não me faltam desafios aos quais eu tenho de responder de forma imediata. Outros existem que requerem um tipo diferente de abordagem, porventura mais demorada, mas também mais racional. A cada dia que passa sou obrigado a uma adaptação, pequenos ajustes que me levam sempre ao mesmo sítio, uma realidade que necessita de uma nova abordagem. Quem diria que viver dá tanto trabalho. Sou um pedaço biológico em constante adaptação.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

2024/10/05

 5 de outubro, feriado. Poderia ter sido um dia qualquer, mas não foi. Quando a minha prima enviou uma mensagem dizendo que queria vir cá abaixo, ponderei dizer-lhe que não era a altura indicada para uma visita, mas algo me levou a mudar de ideias. Acredito que tenha sido o destino. Quem melhor do que ele para insinuar decisões cujas consequências são irreversíveis? Bendito seja ele por me ter levado a mudar de ideias. O livro que estou a ler, “O Mapeador de Ausências” de Mia Couto, fala de uma viagem a Moçambique, mas da sua leitura não consegui intuir o futuro. Está bem que essa viagem é um retorno, e que o futuro me reserva outro tipo de viagem. Na prática, eu vou viajar por interposta pessoa. E aqui entra a minha prima Helena e a sua vinda ao Alentejo. Tendo decidido recebê-la restava então saber ao que vinha, se para almoçar ou para jantar, o que levantava questões logísticas relacionadas com o facto de a Deolinda estar de prevenção este fim de semana. Ficámos a saber que o almoço seria a contento de todos e por esse motivo reservámos mesa na ”Ti Lena”, restaurante de grelhados em Deixa o Resto. Já lá os tinha levado uma vez e todos tinham gostado muito. Aqui aproveito para nomear a restante família; Pedro, o marido da minha prima, e os seus dois filhos, o Vasco e o Vicente. Desta vez o Vasco não viria, preso que estava a compromisso ligados à sua atividade musical. Com tudo combinado bastou esperar pelas 12 horas. Eu e a Deolinda saímos de casa sozinhos, eles iriam lá ter. Quando chegámos eles já lá estavam. Entrámos e, como de costume, fomos bem recebidos, mesa a um canto, junto a uma enorme talha, lugar recatado que nos permitia trocar intimidades sem medo de ouvidos alheios. Não vou falar da ementa, que sendo excelente, não merece relevo neste texto. Outra altura lhe estará reservada para fazer justiça ao que de bom se come naquela casa. O almoço decorreu com normalidade. Falamos de tudo e de nada, o que na prática significa que dissertamos sobre política, arte, religião, e pequenos pormenores da nossa vida quotidiana. Só quando chegar aos cafés é que a minha prima revelou a verdadeira intenção da sua visita. Fê-lo de maneira semelhante àquela em que me comunicou a sua decisão de ir trabalhar para a embaixada portuguesa em Cabo Verde. A única diferença foi, que dessa vez já se encontrava no aeroporto e desta vez só parte no próximo fim de semana. O destino também é diferente. Embora África seja uma constante, assim como uma embaixada portuguesa, o país desta vez é Moçambique. Pouco mais havia a dizer se não a congratular pela decisão e desejar-lhe boa sorte. Possivelmente não a verei mais, os 3 anos que lá irá ficar serão demais para a minha esperança de vida. Não foi à mesa que chorei, nem eu nem nenhum dos presentes. A primeira lágrima via-a nos olhos da Deolinda enquanto me ajudava a entrar no carro. Já me tinha despedido de Helena, do Pedro e de Vicente. O carro deles estava estacionado mais à frente e quando nosso passou fiz-lhes adeus. Foi nessa altura que me apercebi das lágrimas de Helena, foi nessa altura que as minhas lágrimas se transformaram num gemido ansioso e sem ar. Um dia depois da minha decisão de começar um diário não poderia haver acontecimento mais disruptivo. Mais tarde, já em casa, a Deolinda foi chamada para ir trabalhar. Que orgulho que eu tenho na Helena e na sua coragem de sangue guerreiro. Ela em moçambique e eu numa cadeira de rodas por trás das redes da refinaria.

terça-feira, 2 de junho de 2026

2023/07/24

 Nunca pensei que fosse tão difícil. O laboratório deixou de ser a minha zona de conforto, a minha concha laboral. O que aconteceu durante estas três semanas de férias? A reposta é óbvia, passaram três semanas. E eu a pensar que podia agarrar o tempo, que podia segurá-lo apenas com a minha força de vontade. Sou obrigado a admitir que me tinha numa conta demasiado elevada. Estou desejando que o dia acabe e isso não é nada bom.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Um Verão No Passado

 

Deambulo pelo pinhal num dia ameno de verão. Levo vestido o que levo, e isso não é importante. Estou aqui e, ao mesmo tempo, tão distante. Por debaixo da rama dos pinheiros, o sol, que não é forte, revela-se um amigo discreto. Este ano, não te vou queimar, não vou aquecer o ar ao ponto de o tornar irrespirável, não te vou martirizar com suores desconfortáveis, fazer-te implorar por sombras onde a aragem não penetra. Obrigado, verão, não sei como te poderei agradecer. Talvez este meu ar descontraído e satisfeito te possa recompensar, fazer-te sentir que o teu trabalho não foi em vão. Serei dos poucos plenamente satisfeitos com a tua brandura. Poucos, mas bons, direi eu. E o que eu disser, embora não seja lei, ficará escrito no ar para toda a eternidade.


Eu também estou numa tenda!

Eu também estou numa tenda! Já há muito tempo que não ficava tão orgulhoso com imagens nas televisões generalistas: um movimento social de r...