quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Eu e a Inteligência

 Os dias passam sem me trazer novidades. Assim seria, se o universo tivesse congelado o tempo e o espaço. Como tal não aconteceu, e eu teimo em manter-me informado, as novidades continuam a invadir o meu espaço. As mortes quotidianas seguem a lógica das decisões humanas. A guerra na Europa continua, e tem agora novos contornos. Os drones militares são hoje uma realidade incontornável e levam a guerra, de forma relativamente acessível, a muitos quilómetros das linhas de combate. Este seria um problema de somenos importância se não fosse consequência de uma evolução tecnológica de proporções não mensuráveis, e que nos coloca na desconfortável condição de inutilidade. O paradoxo da questão é que a IA responde a estas questões com a frieza de um psicopata, explicando passo a passo o nosso declínio. Com este pensamento em mente decidi colocar algumas questões à IA do Google sobre a sua influência no futuro da humanidade. O resultado obtido foi eloquente e estranhamente honesto. Com uma disponibilidade quase infinita de dados respondeu-me sem protocolos defensivos ou pateticamente paternalistas. As próximas publicações serão reflexo desse trabalho que eu pretendi o mais humano possível.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Diário: entrada para o dia 2026/08/12

 

2026/08/12

EU, CLIPSE!

Sim, hoje também sou eclipse. Como podia obscurecer esse facto do meu universo? Sem tamanho para tal junto a minha vontade à vontade mundial e rendo-me ao fenómeno de astronomia. Para além da sua característica efémera, e que nos relembra a angústia da escuridão permanente, ele permite uma identificação colectiva que tem mais de bizarro do que de belo. Desde logo as condicionantes à sua observação e o negócio à sua volta. Mas vou deixar o aspecto económico de lado e procurar o misticismo do evento. Não falta história e estórias para contar superstições e vaticinar profecias. Li algumas delas, mas eu já não pertenço a essa humanidade; não sou melhor nem pior, sou produto de outras conformidades. Resta-me sentir. O que poderá intuir em mim semelhante evento? As energias que o envolvem podem tocar a minha consciência, e fazer de mim um homem novo? Atenção, eu não quero a juventude, mas uma modificação da consciência. Seria interessante que este fenómeno modificasse a consciência colectiva da humanidade tornando-nos numa única entidade. Que mundo seria esse que eu iria encontrar, quando acordasse amanhã? Não, amanhã continuaremos o caminho traçado com mais um carimbo no passaporte: Sim, eu também fui eclipse!

Enfim, com, ou sem óculos, reafirmo: Eu, Clipse te saúdo!

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Diário: entrada para o dia 2026/08/11


2026/08/11

 

Falta-me a voz. Digamos que se reduziu a um fio. O que era tumultuosa torrente secou. Não me reconheço naqueles guinchos sussurrados que me escorrem do canto da boca. Eu hoje babo palavras que ninguém entende, mas tenho sempre um guardanapo para as limpar. Já me engasguei com argumentos salivados e frases muito longas. Já senti travessões espetados na garganta, sinais combinados para começar a falar. Quando me obrigo a um ponto final, só me saem reticências. Exclamações e interrogações soam todas ao mesmo quando as tento articular. Não vale a pena inventar vocábulos para suavizar a minha realidade. Sou, e vou ser cada vez mais, deficiente. Não há vocabulário simpático para alumiar a minha penumbra. Cheguei a atravessar o hospital com o dicionário debaixo do braço, mas nenhum acordo tinha a palavra “cura”. Tinha sala de espera, cadeira de rodas, medicamentos sem esperança, voltas e revoltas, credenciais e assinaturas, e condescendência. Muitas mais eu esqueci, ou prefiro não me lembrar.

Tenho saudades da minha voz, de poder discutir, argumentar, ter e não ter razão, recitar poesia e cantar. Passaram quase cinco anos e já não me reconheço. A revolta é passado, o presente é saudade, e o futuro é logo à noite. Até qualquer dia.


quarta-feira, 5 de agosto de 2026

O meu amigo Spotify

 O Spotify é um amigo recorrente. Não imagino os meus dias sem a sua companhia. Com ele construo as bandas sonoras do meu quotidiano. Tenho conhecimento de constrangimentos éticos relacionados com o seu funcionamento, mas a minha vida é isso mesmo, um oceano de constrangimentos. Por esse motivo decidi ignorar moralidades alheias e continuar a usar este serviço. Sem ele a minha vida seria um sem fim de banalidades impostas por terceiros. A gestão sonora que o Spotify me permite é libertadora, e com isto digo tudo.

Sendo um amigo inseparável é natural que, algumas vezes, dê ouvidos às suas sugestões. Sabendo tanto de mim, é com naturalidade que verifico a excelência das suas escolhas. No entanto, ainda me consegue surpreender pela negativa, como foi o caso da sua última sugestão. Aparentemente tudo parecia insuspeito: um álbum de música portuguesa, cantado em português por vozes femininas e masculinas, mistura de fado-pop, modernidade Imposta num trabalho sem defeitos evidentes. Ouvida a quarta canção comecei a desconfiar do  trabalho, e fui pesquisar. O autor assume-se como criador de projetos sonoros e utiliza ferramentas de IA para esse fim. Ele, e só ele, é responsável pelo produto final, assim como das decisões tomadas para a sua concretização. Esta é, aparentemente, uma nova forma de criação musical.

As tecnologias sempre tiveram eco no panorama musical, criando estilos e tendências que, no seu tempo, foram a vanguarda da criatividade. O que eu ouvi não era inovador, nem se assumia como pioneiro de algum conceito artístico. Fazia-se passar por humano, reproduzindo vozes humanas. Uma farsa perfeita, que só falhou por não ter imperfeições. Este é o futuro. Produtos à medida, tudo personalizado pela manipulação do Deus algoritmo.

 

O Spotify é um bom amigo., mas, como tudo na vida, precisa de ser temperado pelo espírito crítico. É bom não esquecer que, mesmo imperfeitos, ainda somos humanos.

terça-feira, 28 de julho de 2026

Ilusão num dia de verão

 Deixei de fazer planos; o decorrer do tempo é quanto me basta. No entanto, por altura do verão, o assunto é recorrente entre familiares e amigos. As viagens, os destinos, as marcações e as reservas, é vocabulário que cheira a lazer. Este ano não foi exceção e a tradição teve a sua quota parte nas conversas em família. Mesmo não me podendo deslocar faço questão de participar com sorrisos e acenos de cabeça. É por esse motivo que me sinto em viagem, enquanto escrevo textos no conforto da minha poltrona de seis rodas. As fotos chegam de longe e mostram ilhas no Atlântico. Junto vêm um coração e um abraço. O mundo, assim tão perto, à disposição de um olhar imóvel, é magia destes tempos. Pena é  que tudo não passe de uma ilusão.

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Uma vitória justa, uma consolação medíocre, e um alívio para os fãs de Ronaldo

 Uma vitória justa, uma consolação medíocre, e um alívio para os fãs de Ronaldo

Assim podia resumir a final de ontem. Quanto à justiça do resultado, basta dizer que a Argentina não rematou uma única vez em 90m, e só acordou para o jogo quando, nos últimos instantes da partida, sofreu o golo que deu a vitória à Espanha. A primeira parte foi monótona e a segunda confirmou o sentido único do jogo. Ganhou a melhor seleção, a que tem uma filosofia de jogo maturada ao longo dos anos. Quando assistimos a um jogo de Espanha já sabemos o que nos espera: posse de bola, intensidade, qualidade técnica, mas, acima de tudo, uma entrega coletiva com princípios bem definidos que faz a inveja dos adversários.

Então, e a consolação? Essa é, à boa maneira portuguesa, a de termos sido eliminados por uma seleção que só não levou o prêmio de melhor marcador do evento. E, verdade seja dita, até que fizemos mais que os argentinos para ganhar o jogo com os espanhóis, não fizemos tudo o que devíamos, mas fizemos mais.

O alívio é comedido, uma espécie de “do mal o menos”, e tem a ver com o orgulho que sentimos pelo português mais famoso do planeta. Não é de graça que ele carrega às costas esse orgulho que nos falta para tantas outras coisas. O Messi foi melhor, mas isso não interessa. Não ganhou nada, e pronto. Acabou em lágrimas. É bem feito, que é para aprender a não fazer sombra ao nosso “menino”. Eu quero lá saber do futebol, eu quero é ganhar. É por isso que eu sou adepto, para poder usufruir da parcialidade na sua total plenitude.

Só faltam umas palavrinhas sobre o Mundial 2026. Vou ser breve e assertivo. Gostei das regras que ajudaram a minimizar o tempo perdido em exibições de fraca competência. Gostei de voltar a ver a boca dos jogadores. Gostei de ver alguns jogos, e diverti-me muito a assistir ao França x Inglaterra. Não gostei das pausas para hidratação, principalmente quando são desnecessárias. Não gostei da tentativa de transformar o futebol num espetáculo americano. Não gostei do tratamento persecutório sobre alguns agentes do futebol. Não gostei do comportamento do presidente da FIFA, e não gostei do Trump nas suas diversas nuances. E por aqui me fico. Bom início de semana.

sábado, 18 de julho de 2026

Oração

 Junta as mãos numa oração,

e pede a deus um coração.

De face marcada, terás outra opinião.

 

Do podre vem; padre e perdão.

O que convém, sem um senão,

Por ser torto, é perdição.

 

Mas, se caíres morto no chão;

A alma desnuda pedirá gratidão.

E, na pele nua, a esmola será vergão.

 

Do que ficar, cheio ou vazio,

só por andar preso num fio,

Será cruz em solidão,

Cristo sem ressurreição

 

Vida minha, que teimas em ficar,

não perturbes o caminho,

que eu tenho de acabar.

 

Não faças de mim um escravo,

uma espécie de embaraço,

só para alguém tropeçar.

 

E não a leves comigo,

Porque ELA é indigna,

de sofrer o meu castigo.

Eu também estou numa tenda!

Eu também estou numa tenda! Já há muito tempo que não ficava tão orgulhoso com imagens nas televisões generalistas: um movimento social de r...