O meu amigo Spotify
O Spotify é um amigo recorrente. Não imagino os meus dias sem a sua companhia. Com ele construo as bandas sonoras do meu quotidiano. Tenho conhecimento de constrangimentos éticos relacionados com o seu funcionamento, mas a minha vida é isso mesmo, um oceano de constrangimentos. Por esse motivo decidi ignorar moralidades alheias e continuar a usar este serviço. Sem ele a minha vida seria um sem fim de banalidades impostas por terceiros. A gestão sonora que o Spotify me permite é libertadora, e com isto digo tudo.
Sendo um amigo inseparável é natural que, algumas vezes, dê
ouvidos às suas sugestões. Sabendo tanto de mim, é com naturalidade que
verifico a excelência das suas escolhas. No entanto, ainda me consegue surpreender
pela negativa, como foi o caso da sua última sugestão. Aparentemente tudo
parecia insuspeito: um álbum de música portuguesa, cantado em português por
vozes femininas e masculinas, mistura de fado-pop, modernidade Imposta num
trabalho sem defeitos evidentes. Ouvida a quarta canção comecei a desconfiar do trabalho, e fui pesquisar. O autor assume-se
como criador de projetos sonoros e utiliza ferramentas de IA para esse fim. Ele,
e só ele, é responsável pelo produto final, assim como das decisões tomadas
para a sua concretização. Esta é, aparentemente, uma nova forma de criação musical.
As tecnologias sempre tiveram eco no panorama musical, criando estilos e
tendências que, no seu tempo, foram a vanguarda da criatividade. O que eu ouvi
não era inovador, nem se assumia como pioneiro de algum conceito artístico.
Fazia-se passar por humano, reproduzindo vozes humanas. Uma farsa perfeita, que
só falhou por não ter imperfeições. Este é o futuro. Produtos à medida, tudo personalizado
pela manipulação do Deus algoritmo.
O Spotify é um bom amigo., mas, como tudo na vida, precisa de
ser temperado pelo espírito crítico. É bom não esquecer que, mesmo imperfeitos,
ainda somos humanos.
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