Diário: entrada para o dia 2026/08/11
2026/08/11
Falta-me a voz.
Digamos que se reduziu a um fio. O que era tumultuosa torrente secou. Não me
reconheço naqueles guinchos sussurrados que me escorrem do canto da boca. Eu
hoje babo palavras que ninguém entende, mas tenho sempre um guardanapo para as
limpar. Já me engasguei com argumentos salivados e frases muito longas. Já
senti travessões espetados na garganta, sinais combinados para começar a falar.
Quando me obrigo a um ponto final, só me saem reticências. Exclamações e
interrogações soam todas ao mesmo quando as tento articular. Não vale a pena
inventar vocábulos para suavizar a minha realidade. Sou, e vou ser cada vez
mais, deficiente. Não há vocabulário simpático para alumiar a minha penumbra.
Cheguei a atravessar o hospital com o dicionário debaixo do braço, mas nenhum
acordo tinha a palavra “cura”. Tinha sala de espera, cadeira de rodas,
medicamentos sem esperança, voltas e revoltas, credenciais e assinaturas, e
condescendência. Muitas mais eu esqueci, ou prefiro não me lembrar.
Tenho
saudades da minha voz, de poder discutir, argumentar, ter e não ter razão,
recitar poesia e cantar. Passaram quase cinco anos e já não me reconheço. A
revolta é passado, o presente é saudade, e o futuro é logo à noite. Até
qualquer dia.
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