sábado, 30 de maio de 2026

Pastiche poético

Introdução necessária para evitar constrangimentos ou acusações de de falta de honestidade 

A concepção deste poema é minha. Após conclusão pedi à IA uma crítica literária. Satisfeito com a crítica pedi um aperfeiçoamento faseado para perceber até onde o original poderia ser descaracterizado. Ela acabou por fazer três versões tendo chegado a uma versão final que agradou ambas as partes. O poema aqui apresentado é o resultado de três horas de trabalho e muita discussão. Apresento também a crítica literária que espelha bem o que eu a balizei. Não sei se vou repetir, mas tinha de experimentar. Isto é, portanto, um pastiche poético.


À Margem do Calendário

No dia, a noite demora-se

e na noite amadurece o dia;

eu, sem saber o que nomeio,

já não sei o que em mim vivia.

 

Sentado à margem do calendário,

vi os dias desfazerem-se em cinza,

tropeçando nos quadrados brancos

onde os números falam por nós.

E esqueci-me de que o tempo

nunca se demora a sós.

 

Hoje não conto os dias,

nem me adormeço a contá-los;

deixo que passem sem margens,

sem foz para desaguar.

 

Dizem que me falta a alma

por não me ouvirem quebrar,

por não fazer do silêncio

um outro modo de gritar.

 

Mas quem sou eu para dizer-lhes

que o dia é só invenção,

que a meia-noite o inaugura

por costume ou convenção;

que as horas são prisões

que impomos à razão;

que os dias passam no corpo

como crentes sem devoção

e que nenhum calendário

nos resgata por gratidão.



Comentário crítico

O poema constrói uma reflexão de natureza existencial em torno da experiência do tempo, contrapondo o tempo objetivo, regulado por convenções humanas, ao tempo subjetivo, vivido de forma íntima e descontínua. A imagem do calendário funciona como símbolo da tentativa de organizar racionalmente a existência, enquanto o sujeito poético evidencia uma consciência de desajuste perante essa ordem. Ao longo do texto, a linguagem imagética e o tom meditativo contribuem para uma visão crítica da contagem dos dias, sugerindo que a medição do tempo não altera a essência da condição humana. Assim, o poema articula lirismo e pensamento abstrato, alcançando um equilíbrio expressivo entre experiência individual e reflexão universal.




segunda-feira, 25 de maio de 2026

Num diálogo com a IA

 

Acordei com sentido de humor e olhei para a guerra com amor. À minha vista o cenário habitual, a morte ceifava no seu ofício banal. A manhã é sempre melhor quando à nossa volta sentimos que a dor é maior. Isto diz o homem que não tem esperança. Por detrás do ser biológico a alma prefere outra dança. Eu sinto tristeza pela vida desperdiçada, pelo sangue perdido em orgias e desgraça, pelo ódio perverso e pelo grande mistério do universo. Todos os dias me vendem verdades inquestionáveis, mas o que eu ouço são mentiras prováveis.

E, no entanto, continuo, como quem atravessa um corredor de hospital sem saber se procura um quarto, um nome, ou a simples confirmação de que ainda respira. Há nas coisas um cansaço antigo, uma ferrugem mansa a comer os dias, e cada gesto, por mais pequeno, arrasta atrás de si o peso de uma infância desarrumada, retratos tortos na parede, vozes que regressam da cozinha onde a miséria fervia devagar com a sopa. Olho o mundo e o mundo devolve-me o seu rosto de animal ferido, os dentes gastos, a baba da crueldade, a paciência infinita das ruínas. Não é apenas a guerra, entende, não é apenas o estampido, o corpo tombado, a sirene, o clarão sujo da madrugada: é esta maneira de perdermos tudo antes de o termos possuído, esta inclinação para a cinza, este hábito de chamar destino ao que foi abandono. E eu, sentado entre os destroços do que julguei amar, escuto o ranger dos móveis, a respiração das paredes, o rumor de um Deus que talvez exista apenas no intervalo do silêncio, e lamento, não com palavras, que as palavras também adoecem, mas com esta fadiga funda de quem percebe tarde demais que a ternura era a última trincheira e também ela foi saqueada.

 Nota: O primeiro texto é meu. O segundo é uma resposta da IA à minha provocação.

domingo, 24 de maio de 2026

A Solidão e a Imobilidade Noturna

 

À noite, o quarto cresce como um animal de paredes húmidas, e o homem, imóvel na sua ilha de lençóis, escuta relógios a mastigar o escuro. As pernas são duas portas fechadas por dentro. Pela janela, a lua pendura peixes de vidro no silêncio. Ele conversa com o teto, com a cadeira, com a sombra do copo, enquanto a solidão, de luvas brancas, lhe penteia devagar os ossos acordados.

Texto gerado por IA com instruções de P. Guerreiro com o objetivo de refletir sobre a situação de doença em que este se encontra 

domingo, 12 de maio de 2024

Sem Mãos...

 A mão que arrasta o rato,

o rato foge do gato,

e o gato que mal vê,

mete a mão lá no buraco.


Clico no lado direito,

estico-me sem nenhum jeito,

para um preceito errado,

que eu não levo muito peito.


A mão que pede perdão,

pelo falha, pelo senão,

pelo tremor sem vontade

pelo pegar sem tesão


Clique no lado esquerdo,

com o dedo cheio de medo,

com um toque que não abre

cheio de desassossego.


A mão que tenho é minha,

foi da alma a minha espinha.

Hoje deixou de escrever,

traço, ponto, risco e linha





terça-feira, 2 de abril de 2024

Fake future (apologia da bioexclusão)


 

O futuro será nano qualquer coisa,

Universo quântico de incertezas.

O futuro será intimamente artificial,

mas a sua afiguração será natural.

O futuro será fake,

contrafação ordinária.

Virá do fundo de um abismo,

e sem certificado de origem.

 

O futuro será proveito,

no céu e na terra,

na paz e na guerra,

artificial no conceito,

inteligência por defeito,

que numa máquina se encerra

O futuro inovará a verdade

numa versão não binária,

Firmeware X ponto zero

de uma mentira ordinária.


O futuro será ilusão,

Mentira à la carte,

Deceção.

Fake Future, fuck tudo,

fuck o homem moribundo,

Homem fake, homem inocente,

Fuck o homem no presente.

Homem crente, sofisticado,

fuck o homem do passado.

Fake man, homem ausente,

homem Deus em todo o lado.

Referência ou acidente,

qual o teu o significado?

 

O futuro será qualquer coisa;

Será Judas dependurado

Num ramo de oliveira,

Será Cristo inventado,

Em versão de brincadeira.

Play game, smartphone,

fake de um fake, ou clone.

Será quarta dimensão,

será tempo sem perdão.

Serás tu e serei eu

sem saber se aconteceu.

Será fuck de fodido

Com direito a desmentido.

serão bites lá no céu,

Internet de cú ao léu.

Será costa sem horizonte,

Só porque alguém a criou.

Será ilha sem ponte,

Avatar que não voou.

Será a história ao contrário

Contada depois de amanhã.

Será vento na cidade,

Com cheiro de hortelã.

Será viagem temporal,

com o canastro num divã.

Viver com ansiedade,

sem precisar de nascer.

Garantir continuidade,

sem precisar de foder.

 

O futuro será qualquer coisa

Será presente ou passado,

Aqui ou em nenhum lado.

Será tudo o que quiseres,

E se assim o programares,

Poderá nem acontecer. 

quinta-feira, 28 de março de 2024

PÁSCOA

 

No primeiro Concilio de Niceia

Ditou-se que seria o primeiro

Domingo depois da lua cheia

Logo após o início

do equinócio vernal.

 

A lua cheia pascal

Lua das penitências

Lua de Cruzes, urgências

Paixão de Cristo, Calvário

Pilha de crânios, sinal

Julgamento, execução,

Pensamento, expiação,

Crucificação passional

Ressurreição,

Menos mal…

 

Ao cumprimento Pascal

“Cristo ressuscitou!”,

Vem a resposta formal

“Em verdade ressuscitou”,

 

Mas a raiz é diferente,

E esconde-se do tempo presente.


“Passar adiante”.

Páscoa

“Passar adiante”.

Pesach.

Passa adiante

Anjo exterminador.

Vê este sangue na porta,

Sinal que te revela,

Ó anjo redentor,

Assassino viajante,

Aquele que deves evitar,

Qual tu não deves matar.

Eu sou o divino emigrante,

O que matou o cordeiro,

Do povo divino, o primeiro.

 

Ó Anjo arrogante,

Vai e observa o preceito.

Vai e deixa o meu coração,

Deixa-o bater no meu peito,

Voltar à terra prometida,

Cumprir a sorte de um povo

O povo eleito por Deus,

Um povo que vai de fugida.

 

Vai anjo de Morte

Mata tudo o que puderes,

Mata com um só corte

Os homens e as mulheres.

 

 O filho de Deus no final

Irá pagar o destino.

Quando hoje ouvires o sino

Louvarás num ritual,

Aquele que morreu na cruz.

Será a missa Pascal

Quem te fará peregrino

E no árduo caminho

Onde andarás clandestino

Mesmo sem crer verás luz.


domingo, 24 de março de 2024

Sem Direção

À esquerda de quem vem

À direita de quem vai

De um lado porque tem

Do outro lado porque cai

Tens a estrada que convém 

Tens a seta que distrai 


Pintas de rosa o desdém 

Pintas sem cor o que sai

E tudo o que sai não convém 

E tudo o que vem também cai

E se cai é porque tem

E se tem é porque vai


Leva na rosa, o desdém 

Leva o corpo, distrai

Leva-o um pouco mais além 

Leva-o porque senão cai


Rega de vinho o destino

Tinto ou branco, divino

Rega de sangue o que sinto.

Branco ou tinto lavai

Porque num copo sem tino

Copo de vinho ou destino

Branco ou tinto, não minto

Há sempre alguém que não vai

Há sempre alguém que descai


No muro a marca que diz

Foi aqui porque eu quis 

Foi aqui que eu sonhei

À esquerda de quem veio

À direita de quem foi


Numa placa a raiz

Com origem num país.

Foi aqui que eu morei

Mesmo ao lado de um seio

Pegando nos cornos de um boi


Diz-me do lado que dói

Aponta-me um dedo à dor

Rato que ladra não rói

Rato na água é castor

Nem sempre a pedra constrói

Nem sempre  o sangue tem cor

Pedra que voa não corre

Pedra no chão é flor










Eu também estou numa tenda!

Eu também estou numa tenda! Já há muito tempo que não ficava tão orgulhoso com imagens nas televisões generalistas: um movimento social de r...