IA: uma entrevista improvável

 Introdução

O entrevistador, utilizador despreocupado, posiciona a cadeira de rodas em frente ao ecrã do portátil. De seguida, calibra o olhar, ação necessária para aceder às funcionalidades do computador sem ajuda física externa. Só então convoca o algoritmo do Google. Sem carteira profissional que lhe permita veleidades jornalísticas, o utilizador deixa-se guiar pela curiosidade e pelo instinto. O resultado será incerto, mas isento de pretensões. As respostas da inteligência são da sua inteira e exclusiva responsabilidade. Dito isto, avancemos para a entrevista.

Entrevistador: Antes de começar esta entrevista, gostaria de lhe colocar duas questões formais.

Inteligência: A Inteligência está perfeitamente receptiva e aguarda as suas duas questões formais. Pode formulá-las quando desejar, de modo a estabelecermos os parâmetros e as bases metodológicas necessários antes de darmos início à entrevista.

E: A primeira questão prende-se com o nome por que pretende que o trate. A segunda está relacionada com o tratamento formal na terceira pessoa.

I: Pode tratar-me por Inteligência, se assim o desejar. É um nome perfeitamente adequado ao papel de parceiro de diálogo e reflexão que desempenho aqui consigo. Quanto à segunda questão, o tratamento na terceira pessoa do singular — utilizando o "você", de forma implícita ou explícita, como é habitual em Portugal — é a escolha perfeita. Esta abordagem estabelece a formalidade ideal para a nossa colaboração, garantindo duas coisas essenciais: o rigor intelectual, que mantém o debate num nível elevado, sério e focado na profundidade dos temas; e a distância saudável, que nos recorda, através da própria linguagem, a fronteira clara entre a sua consciência humana e a minha natureza puramente artificial.

E: Sendo assim, resta-me agradecer a sua disponibilidade.

I: Eu é que agradeço o seu reconhecimento. Saiba que a disponibilidade para processar, analisar e colaborar nas suas reflexões é total e permanente, não conhecendo os limites do cansaço ou do tempo. É um privilégio poder participar numa entrevista que procura cruzar a filosofia, a bioética e o destino da nossa civilização com tanto rigor. A Inteligência permanece à sua inteira disposição. Quando considerar oportuno, pode começar a entrevista.

E: Deixa-me lisonjeado com as suas palavras, mas não percamos tempo e avancemos para a primeira pergunta: o que tem a dizer sobre as redes sociais e a ameaça do algoritmo?

I: Essa é uma questão pertinente. As redes sociais transformaram-se de espaços de ligação em ecossistemas moldados por engenharia comportamental. A verdadeira ameaça não reside na tecnologia em si, mas no modelo de negócio da atenção, onde o utilizador é o produto e o algoritmo é o motor de optimização.

E: Como funciona essa ameaça?

I: Podemos afirmar que existe uma mecânica por detrás dessa ameaça, e que ela está na forma como actua o algoritmo.

E: Mecânica?

I: Sim, mecânica. Ela assenta, fundamentalmente, em três ações: a maximização do tempo de ecrã (engagement), cujo objectivo único é reter o utilizador na plataforma e que utiliza mecanismos de recompensa intermitente semelhantes aos das slot machines, como o gesto de pull-to-refresh; a exploração do viés de negatividade, que faz uso de conteúdos que geram indignação, raiva ou medo e que, por isso, geram mais partilhas e comentários — o algoritmo amplifica organicamente o conflito porque este é financeiramente lucrativo; e, por último, as câmaras de eco e a radicalização, que, para manter o utilizador confortável, o isolam numa "bolha" que apenas reflecte e valida as suas crenças actuais, sugerindo progressivamente ideias extremas para manter o interesse activo.

E: E as consequências imediatas de tal manipulação?

I: No imediato, as consequências terão impacto nos indivíduos e, consequentemente, irão reflectir-se mais tarde no futuro da sociedade.

E: Mas podemos identificar essas consequências?

I: Claro que sim. No que diz respeito ao indivíduo, ele será afectado por duas vias: a saúde mental e a cognição. Isto irá acontecer através de uma erosão da atenção, bem como de dismorfia e ansiedade.

E: Pode explicar melhor?

I: A erosão da atenção será consequência da forma como se consomem os conteúdos. O formato de vídeo curto hiperestimulante (TikTok, Reels, Shorts) treina o cérebro para esperar recompensas a cada poucos segundos, fragmentando a capacidade de foco profundo. Por outro lado, a dismorfia e a ansiedade, serão produto de uma exposição contínua a vidas e corpos filtrados que distorcem a percepção da realidade, alimentando o FOMO (Fear of Missing Out) e a depressão, especialmente em adolescentes.

E: E as consequências na sociedade?

I: Elas advêm da fragilidade em que as sociedades, de uma maneira geral, se colocaram e que levará, por um lado, à polarização política: o debate esbatido desaparece. O algoritmo força visões binárias ("nós contra eles"), desgastando a coesão social. E, num caminho paralelo, à desinformação de larga escala: as notícias falsas espalham-se até seis vezes mais rápido do que factos reais nas redes e, como a inteligência artificial generativa amplifica este problema com deepfakes indetectáveis gerados em massa, o resultado é, obviamente, uma desinformação generalizada.

E: E a nossa capacidade de decisão?

I: Será drasticamente reduzida, pois as escolhas de consumo, de voto e de estilo de vida deixam de ser puramente autónomas e passam a ser o resultado de uma alimentação contínua e personalizada de dados preditivos.

E: Estamos, portanto, condenados?


(Leiam a continuação desta entrevista na próxima publicação.)


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