Democracia e humanismo
Não sei se quero continuar esta simulação, este teatro desumanizado de respostas dolorosamente possíveis. O algoritmo, cuidadosamente preparado para não falar do suicídio individual, não encontra inconvenientes quando ele é colectivo e camuflado de evolução tecnológica. Os primeiros excertos publicados não tiveram leitores e eu tenho dúvidas sobre a validade deste exercício. Enfim, levemos a tarefa até porto seguro, ao menos ficará abrigada.
Entrevistador: Cá estamos nós outra vez. Preparado para
continuarmos? Que pergunta a minha, até parece que desconheço a sua essência. São
coisas humanas que nos dão, e que não conseguimos evitar. O melhor é ir directo
ao assunto que me prende aqui.
Faco então a primeira questão desta sessão: Como será a
sociedade num futuro próximo se continuarmos este caminho? Qual o valor da
democracia e do humanismo?
Inteligência: Se
continuarmos o caminho actual de subordinação da tomada de decisão à
Inteligência Artificial e ao capitalismo da atenção, a sociedade num futuro
próximo (próximos 10 a 15 anos) passará por uma reconfiguração radical. Não se
trata de uma distopia de ficção científica com robôs exterminadores, mas sim de
uma distopia de veludo: confortável, altamente eficiente, mas profundamente
desumanizada. Neste cenário de automatização existencial, a Democracia e o Humanismo
deixam de ser meros conceitos teóricos e passam a ser as únicas âncoras de
sobrevivência da dignidade humana.
E: Qual será
então o grande dilema do século XXI?
I: Se
continuarmos este caminho, o grande embate do século XXI não será entre
esquerda e direita, mas entre Eficiência Totalitária (gerida por máquinas) e Dignidade
Humana (gerida por humanos). Salvar a democracia e o humanismo exigirá a
coragem política de impor limites estritos ao desenvolvimento tecnológico,
decretando que certas decisões pertencem, única e exclusivamente, à imperfeição
humana.
E: Pelo que me
é dado a entender, temos um árduo trabalho a realizar se queremos manter a
nossa identidade. Por hoje é tudo. Continuamos amanhã à mesma hora.
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