Continuação da entrevista improvável
Decisões políticas, empresariais e militares baseadas na IA
Após uma breve pausa para o almoço, solicitação humana imprescindível
à nossa sobrevivência, volto à entrevista. A questão deixada no ar, antes da minha
interrupção forçada, teve uma resposta verdadeiramente optimista, mas
enganadora. Voltarei a ela mais tarde, talvez em jeito de conclusão. Por agora
decido explorar outra linha de pensamento. Continuemos então a nossa entrevista:
E: Bem, cá estou eu outra vez. Gostaria agora de aprofundar o
tema da influência do algoritmo em sectores críticos da nossa sociedade. Assim
sendo, poderia dar-nos a sua perspectiva sobre o impacto da IA nas decisões políticas,
empresariais e militares?
I: Sim, efectivamente essas decisões serão
influenciadas de forma profunda e praticamente irreversível. Em 2026, a
Inteligência Artificial deixou de ser uma ferramenta experimental de automação
para se tornar o motor central de "sistemas de suporte à decisão" (Decision
Support Systems). Isto deve-se à compressão do ciclo de decisão: a IA
processa volumes massivos de dados em milissegundos, forçando líderes
políticos, CEOs e comandantes militares a tomarem decisões a uma velocidade que
o cérebro humano, sozinho, não consegue acompanhar.
E: Pode especificar?
I: Nas decisões militares, por exemplo, pode ajudar no
planeamento estratégico, na logística e na execução táctica no campo de
batalha. Pode também actuar na selecção de alvos e vigilância (targeting), onde
sistemas de IA analisam imagens de satélite, transmissões de drones,
comunicações interceptadas e dados geográficos em tempo real para identificar e
sugerir alvos a uma velocidade sem precedentes. Pode ainda fazer simulações de cenários
(war gaming), em que modelos generativos criam milhares de cenários tácticos
realistas por minuto. Avaliam rotas, riscos de escalada e linhas de
abastecimento antes de as tropas avançarem. Tudo isto é já uma realidade, que
tenderá a evoluir conforme o aumento da capacidade de computação (computadores quânticos)
e a sofisticação e complexidade dos algoritmos utilizados.
E: E o escrutínio humano dessas decisões?
I: Efectivamente, existe o risco do viés de automação
(automation bias). A velocidade dos ataques exige respostas tão rápidas que a
capacidade de controlo e supervisão humana real está a ser esvaziada,
transferindo decisões de vida ou morte para caixas-negras algorítmicas.
E: Deduzo que algo de semelhante se irá passar no sistema empresarial?
I: Sim, também aí se irá passar algo de semelhante. As futuras decisões
empresariais serão tomadas através de uma gestão por predição. Nas grandes
corporações, as decisões cruciais já são validadas, ou geradas, por modelos
preditivos avançados.
E: Pode dar alguns exemplos?
I: Posso dar-lhe o exemplo das decisões relacionadas com fusões,
aquisições e investimentos. Os algoritmos realizam auditorias (due diligence)
automáticas, analisando contractos jurídicos, relatórios financeiros globais e
tendências de mercado para prever o sucesso de uma fusão ou investimento. Mas
também a gestão de riscos geopolíticos que, tendo em conta a instabilidade
económica mundial, levou as empresas a utilizar sistemas que recorrem a dados,
como é o caso da IA, para monitorizar cadeias de abastecimento globais. Estes sistemas
alteram rotas e fornecedores de forma autónoma ao menor sinal de greve,
conflito ou catástrofe climática. E as decisões relacionadas com os preços e a
sua alocação dinâmica não escapam a esta tendência. Assim sendo, os sistemas baseados
na IA determinam o preço de produtos e a distribuição de stock em tempo real,
com base no comportamento preditivo dos consumidores.
E: Ainda não referiu a influência nas decisões políticas.
I: É verdade. Talvez porque é uma questão muito sensível às
democracias humanistas, a resposta seja dolorosa para o ego humano.
E: Não pode ser pior do que já aqui foi dito.
I: Efectivamente, não é. Podemos até afirmar que é similar aos
casos anteriormente descritos. As decisões políticas e a governação serão consequência
de um Estado algorítmico, onde os governos utilizam a chamada governação
algorítmica para formular políticas públicas e gerir recursos do Estado. A distribuição
de recursos e a segurança social serão decididas pela IA. Será ela que irá decidir
quem tem direito a subsídios, prioridade em habitação social ou apoios à
infância, cruzando dados fiscais, de saúde e demográficos. Também haverá
microsegmentação política. Nas campanhas eleitorais, os partidos já não decidirão
as suas propostas com base em ideologias puras. Irão usar a IA para analisar o
sentimento das redes sociais e moldar discursos ultrapersonalizados para nichos
específicos de eleitores. Esta é uma realidade camuflada, mas que tem feito o
seu caminho de forma silenciosa.
E: Você pinta um cenário negro para as democracias liberais e capitalistas.
I: Sim, porque elas se debatem com um dilema crítico: a perda
de soberania dos dados e a falta de transparência. Muitas destas decisões de
interesse público são geradas por algoritmos proprietários, desenvolvidos por
empresas tecnológicas privadas (Big Tech), sem auditoria democrática ou
escrutínio dos cidadãos.
E: Por hoje é tudo. Obrigado pela sua atenção e até amanhã.
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